terça-feira, 26 de maio de 2020

NEM PSICOGRAFADA, NEM DITADA: INSPIRADA!



NEM PSICOGRAFADA, NEM DITADA: INSPIRADA!


Embora os três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) falem da vez em que Jesus foi rejeitado pelos moradores de sua cidade natal, Nazaré, em apenas uma Ele aparece citando o provérbio “Médico, cura-te a ti mesmo!” para comentar a rejeição de seus conterrâneos. Curiosamente, o único evangelista a fazer isso é Lucas. Ainda mais curioso: ele era médico.

Apenas uma vez, nos quatro evangelhos canônicos, Jesus aparece pagando o Imposto do Templo. A passagem é narrada apenas por Mateus. Que, por coincidência, era cobrador de impostos.

A cura do homem da mão ressequida também é narrada nos três sinóticos, mas é apenas o evangelho de Marcos que traz a seguinte informação a respeito dos sentimentos de Jesus: “IRADO, olhou para os que estavam à sua volta e, PROFUNDAMENTE ENTRISTECIDO por causa dos seus corações endurecidos, disse ao homem: ‘Estenda a mão’ ”. Acredita-se que o evangelho de Marcos foi escrito por João Marcos, sobrinho de Barnabé e muito próximo do apóstolo Pedro, que provavelmente foi quem passou as informações contidas no livro. É interessante notar que uma das características marcantes da personalidade de Pedro era justamente sua passionalidade, a maneira como suas emoções afloravam e guiavam suas decisões. Seria coincidência ser esse o evangelho que destacou com tanta ênfase os sentimentos de Jesus?

No Velho Testamento, temos a história de Débora, única juíza (uma espécie de líder militar e governante) da história de Israel. Guiando o povo escolhido de Deus, a profetisa Débora obteve uma importante vitória militar contra o exército do rei de Canaã, comandado por Sísera, que acabou morrendo durante a batalha. A Bíblia registra o “canto de vitória” entoado por Débora depois da batalha. Alguns versos em especial chamam a atenção: “A mãe de Sísera olhava pela janela, e exclamava pela grade: Por que tarda em vir o seu carro? Por que se demoram os ruídos dos seus carros?” No Velho Testamento, vemos vários relatos de mortes de guerreiros e líderes, mas foi necessário uma mulher para ter o seguinte pensamento: “Como estará a mãe dele?” Sensibilidade e empatia não são exclusividade do sexo feminino, mas não podemos negar que foi uma mulher a responsável por levantar a questão sobre a qual tantos escritores homens passaram por cima sem perceber.

Toda a introdução acima é só pra destacar uma coisa: a Bíblia não é um livro psicografado (ou seja, Deus não possuiu os corpos dos escritores para que escrevessem os livros bíblicos) e nem ditado (Deus não ficou sentado ao lado dos profetas, falando palavra por palavra o que deveria ir pro papel, ou pro pergaminho, ou pro papiro). A Bíblia afirma, sobre si mesma, que ela é inspirada: “Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça” - 2 Timóteo 3:16. A palavra grega para isso é theopneustos, literalmente “soprada por Deus”. Pedro diz que a Escritura foi feita por homens de Deus movidos pelo Espírito Santo. “Movidos” (phero), aqui, significa “dirigidos”. O Espírito Santo, portanto, inspirou e moveu homens, mas quem escreveu, de fato, foram eles.

Na Bíblia, Deus escreve apenas em duas ocasiões: na pedra, quando da entrega dos Dez Mandamentos, escritos pelo “dedo de Deus” (Êxodo 31:18); e na areia, quando Jesus, Deus encarnado, escrevia durante o julgamento da “mulher adúltera”. Foi Deus quem escolheu que fosse dessa forma. Não temos um “evangelho segundo Jesus Cristo”, porque Ele optou por inspirar, com sua vida, para que outros homens escrevessem sobre sua história. A autoria da Palavra de Deus, por incrível que possa parecer, é humana. É tão humana que o próprio Jesus admite que a Lei de Moisés não correspondia exatamente à vontade de Deus, mas foi adaptada para a audiência da época em que fora escrita: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos concedeu separar-se de vossas mulheres. Mas não tem sido assim desde o princípio”.

É como se Deus houvesse colocado uma imagem diante dos autores das Escrituras, e permitido que os homens, baseados nessa imagem, fizessem uma bela escultura ao longo dos séculos, cada um contribuindo de acordo com sua capacidade e nível de revelação, que foi aumentando ao longo dos tempos. Essa escultura representa uma imagem genuinamente divina, isso é inegável, mas também é inegável que as digitais de seus escultores estão espalhadas por todo lugar.  

terça-feira, 12 de maio de 2020

Pastores podem pegar o coronavírus? Mas e a fé?




Não sei você, mas eu fiquei um pouco confuso ao ouvir notícias sobre alguns pastores que negavam os perigos do COVID-19, não tomaram os cuidados necessários (mesmo indo contra as recomendações governamentais) e acabaram morrendo, vítimas justamente do coronavírus. Achei estranho porque acredito na cura e na fé, e o que aconteceu com esses queridos irmãos parece ir contra os princípios que aprendemos sobre como colocar a fé em prática. Afinal, eles (1) confessaram (“esse vírus não é de nada”, “não vou pegar”, “essa doença não existe”) e (2) tiveram atitudes correspondentes (se expuseram ao contágio). O que aconteceu nesses casos? Por que a fé não funcionou para esses ministros cristãos que, afinal, estavam apenas pregando a Palavra e evangelizando?

Vamos voltar alguns anos atrás, para a viagem feita pelo apóstolo Paulo para a cidade de Roma, onde compareceria, como prisioneiro, perante César. Conforme nos relata o livro de Atos, antes de embarcar no navio, uma palavra veio a Paulo, de que a viagem seria “desastrosa e acarretará grande prejuízo para o navio, para a carga e também para as nossas vidas”. O centurião, mesmo ouvindo a advertência de Paulo, preferiu “seguir o conselho do piloto” e o resultado foi, como Paulo havia previsto, desastroso. A vida de Paulo foi salva porque havia uma necessidade de que ele “comparecesse perante César”, e a graça de Deus fez o restante, poupando a vida de todos os outros embarcados, mas o saldo final da viagem foi a perda da carga e do próprio navio. Uma dúvida que eu sempre tive, e que imagino possa ser a de outras pessoas também, é a seguinte: “Por que não Paulo não repreendeu a tempestade?” Afinal, ele era seguidor de Jesus, que havia acalmado a chuva e o vento em mais de uma ocasião. Além disso, quando realizava esses feitos, Ele deixava bem claro que era a fé que permitia esse tipo de intervenção na natureza, e que os discípulos podiam fazer o mesmo, se não fossem tímidos. Se é assim, porque Paulo não repreendeu a tempestade, mesmo possuindo tanta fé e ousadia?

Para encontrar a resposta, devemos voltar ainda mais no tempo, e dar uma boa olhada na vida de Jesus. Antes de dar início ao seu ministério, o Mestre foi tentado pelo diabo para que saltasse do alto do templo, baseado em um trecho do Velho Testamento: “Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra”. A resposta de Jesus também foi um trecho das Escrituras: “Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus”. O que Jesus entendeu naquele dia foi que colocar-se em uma situação de perigo espontaneamente, esperando que Deus o salvasse, seria uma afronta, ou seja, uma maneira de “pressionar Deus” a fazer algo. Foi por isso que Jesus recusou, vencendo assim a tentação apresentada.

A situação de Paulo foi semelhante. Existia uma palavra de alerta bastante clara, de que eles não deveriam navegar naquelas condições. Mesmo informados disso, os responsáveis pelo navio preferiram seguir sua própria vontade, ignorando o alerta divino e se colocando em uma posição de risco. Em uma situação do tipo, a oração da fé poderia funcionar para repreender a chuva e os ventos, mesmo quando todo o problema teria sido evitado apenas ouvindo o Espírito? Provavelmente não, tanto é que, no relato, não vemos Paulo nem tentando usar sua fé nesse sentido.

Chegamos nos dias atuais, e nos pastores vítimas da COVID. A exposição voluntária ao vírus não seria, também, uma maneira de “tentar” a Deus? Como se eles dissessem: “Vou fazer do meu jeito, e Deus vai me proteger”? Talvez a grande lição de tudo isso seja que a fé não se resuma a apenas “confessar e agir de acordo”. A fé bíblica, a fé que nos salvou e que nos permite vencer o mundo, é uma fé baseada nas Escrituras, uma fé que “vem pelo ouvir, e ouvir a Palavra de Deus”. É uma fé que não pode funcionar quando exercida em desacordo com os princípios bíblicos. Não pode ser exercida em rebeldia, por exemplo. Ignorar os avisos das autoridades, médicas e governamentais, não é fé, é teimosia e rebeldia. A Fé não é uma fórmula mágica, uma receita de bolo, um passo-a-passo. A fé é um estilo de vida, que passa pela submissão à Palavra de Deus, e que opera pelo Amor. Ignorar isso é querer que a fé seja algo que ela não é, é as consequências podem ser desastrosas, como a Bíblia sempre ensinou, e a História insiste em confirmar.

domingo, 29 de março de 2020

CONTO #7: SOBRE REIS E DICIONÁRIOS




  "prometendo-lhes a liberdade, quando eles
mesmos são escravos da corrupção"
II Pedro 2:19


A primeira respiração da guerra recém-nascida foi dada assim que o velho rei soltou seu último suspiro. Dois exércitos, cada um comandado por um dos filhos do falecido monarca, empreenderam uma guerra triste, cansativa e renhida, que durou por vários meses, provocando a abertura e o preenchimento de várias covas novas, espalhadas por todo o reino. Finalmente, o filho mais novo do rei, Gustaff, assumiu a derrota de sua facção, e, diante de todo o povo, ajoelhou-se diante do irmão mais velho, Rudolph, admitindo a vitória de seu oponente, para alívio dos súditos vivos e total indiferença daqueles que já haviam tombado.

Para a surpresa de ninguém, o irmão derrotado implorou pela misericórdia do novo soberano. Poucos esperavam, porém, a resposta dada pelo rei: ele não apenas poupou a vida do irmão caçula, como o livrou do exílio eterno. A pena escolhida para ele foi a prisão perpétua, que deveria ser cumprida no calabouço do castelo real, tradicional residência da monarquia e sede do governo do reino.

Os meses que se seguiram ao fim da guerra foram como todos os meses que se seguem aos fins das guerras: tempo de enterrar os mortos, tratar feridas, trocar presentes, pedir donzelas em casamento e engravidar esposas e noivas. A felicidade (que era mais um alívio do que qualquer outra coisa) era tão palpável e presente em todo o reino, que o Rei Rudolph I, o Misericordioso, em uma bela manhã de primavera, resolveu fazer uma visita de cortesia ao irmão derrotado.     

Gustaff não parecia muito diferente de como o rei se lembrava. Estava mais magro, é certo, mas não esquelético, e um pouco mais branco, afinal, o calabouço ficava no subsolo do castelo, longe da luz solar. Mas parecia tranquilo, e ambos tiveram uma conversa amigável, em que reconheceram erros e excessos cometidos por ambos os lados, e quase pediram perdão um ao outro. Só não pediram porque não cabe aos reis e filhos de reis se desculparem por coisa alguma. Ao final do encontro, o Rei perguntou se havia algo que pudesse fazer para tornar a prisão de Gustaff mais tolerável. O irmão caçula respondeu que a prisão não lhe era particularmente pesada, que estava sendo bem tratado, tinha tudo de que necessitava e que, pra dizer a verdade, só sentia mesmo falta de uma atividade que pudesse lhe ocupar os dias. E, já que o rei havia perguntado, sugeriu que ele poderia, para passar melhor o tempo e talvez ser útil para o povo, auxiliar em um trabalho que sempre o atraíra: a atualização do Dicionário Oficial do Reino.

O pedido, de início, surpreendeu o Rei Rudolph. Parecia um trabalho por demais subalterno para o irmão de um rei, até mesmo para um irmão criminoso e condenado. Mas o pedido havia sido feito com tanta simplicidade, e era tão fácil de ser concedido, que na semana seguinte a cela estava lotada de papéis, penas, tinteiros e livros, e Gustaff já trabalhava mais de 12 horas por dia no longo e tedioso ofício de atualizar o dicionário.

Metade de um ano havia se passado quando chegou às mãos do rei a nova versão do Dicionário Oficial. Era trabalho dos monarcas conferir todas as versões atualizadas do dicionário, já que só depois da aprovação real elas podiam ser encaminhadas aos copistas, para então chegarem às bibliotecas e aos responsáveis pelo ensino das crianças. Obviamente, esse era um trabalho que os reis costumavam delegar, já que decerto havia coisas mais importantes para um governante fazer do que ficar sentado lendo um livro que quase ninguém jamais iria ler.  Mas, como esse era a primeira versão criada por seu querido e desgraçado irmão, o Rei Rudolph resolveu lê-la com atenção, até mesmo para ter algum comentário para fazer em sua próxima visita. Ao passar os olhos pelas centenas de páginas, o rei pouca coisa nova percebeu, mesmo porque a leitura nunca havia sido um de seus passatempos preferidos. Algo, porém, lhe chamou a atenção, o que ele fez questão de compartilhar com Gustaff. "Notei que você fez uma pequena mudança no significado da palavra CAÇULA", comentou, divertido. Gustaff pareceu surpreendido diante da observação e, com os olhos baixos, começou a se justificar, "veja, foi apenas um adendo, não alterei o sentido principal, que continua a ser FILHO MAIS NOVO", disse, gaguejando, enquanto Rudolph lhe apontava a página onde, depois de FILHO MAIS NOVO, aparecia a descrição, após o ponto-e-vírgula: HONRADO. Rudolph riu, tranquilo, disse que não havia problema nenhum, e que realmente havia conhecido muitos irmãos mais jovens que eram homens de grande honra, "inclusive você", acrescentou, já saindo, e dizendo que mal podia esperar pelas novas atualizações anuais do dicionário.

O que foi, é claro, uma grande mentira, já que os afazeres reais impediram que o rei prestasse a mesma atenção às versões seguintes feitas pelo irmão. Ele não notou, por exemplo, que, nos anos que se seguiram, a palavra VENCEDOR adquiriu, além do sentido de GANHADOR DE UMA GUERRA, o significado de TRAPACEIRO. O significado da palavra PRIMOGÊNITO também passou por transformações: além de FILHO MAIS VELHO, queria dizer USURPADOR. O significado de Rudolph foi outro que mudou: além de ser um NOME PRÓPRIO,  também significava OPRESSOR. Durante esse mesmo período, a expressão PERDEDOR passou a significar INJUSTIÇADO, e GUSTAFF adquiriu o sentido de HERDEIRO LEGÍTIMO.

É necessário fazer uma observação a respeito dos dicionários: embora não tenham muitos leitores, os poucos que os leem influenciam os muitos que os ignoram. Entre aqueles que leem os dicionários, por exemplo, estão os professores, que as crianças veem como fontes inquestionáveis de sabedoria. Essas crianças, como sabemos, crescem, e os ensinamentos que recebem passam a fazer parte dos adultos que se tornam. Poetas, escritores e dramaturgos, todos esses, também leem dicionários, e o que aprendem neles passa a habitar suas poesias, seus romances e suas peças para, finalmente, morar no coração de seu público. Os bardos, músicos mendigos que iam de taverna em taverna entoar canções que caçoavam ou elogiavam os poderosos, em troca de comida, moedas ou aplausos, também liam esses livros monótonos, e suas músicas repetiam os significados mutantes das palavras dicionarizadas.

E foi assim que, ano após ano, a boa vontade das massas aos poucos foi diminuindo em relação ao Rei Rudolph, sem que este percebesse, e aumentando em relação a Gustaff, que aguardava com imensa expectativa o que aconteceria quando sua décima versão do Dicionário chegasse ao alcance do povo. Essa versão trazia apenas uma pequena diferença em relação às outras: a expressão GOLPE  havia adquirido um único significado, JUSTIÇA. Poucos meses depois, uma multidão, formada em sua maioria por jovens e adolescentes, invadia o Castelo Real, libertava Gustaff do calabouço e o colocava no trono, ao som de músicas de protesto cantadas e tocadas por dezenas de bardos e escritas pelos mais renomados poetas do reino.

Recém-coroado, o novo rei, Gustaff I, o Justo, viu-se na mesma situação em que estava dez anos atrás, mas com uma diferença: agora era Rudolph quem lhe implorava clemência. Porém, três anos antes, a palavra MISERICÓRDIA havia adquirido o significado de TOLICE, e como Gustaff era um soberano inteligente, Rudolph foi decapitado pela PIEDADE do rei (um dos novos significados da palavra MACHADO). O que se seguiu à coroação foram vários anos de um reinado marcado pela GENEROSIDADE (que agora queria dizer imposto) e pela BONDADE do novo soberano, que mandava cortar as gargantas dos DEMÔNIOS (substantivo masculino. 1- SER DO INFERNO; 2- SERVO DO DIABO; 3- QUALQUER UM QUE RECLAME PUBLICAMENTO DO REI) enquanto dormiam. O povo vivia dias de intensa FELICIDADE, mal fechando os olhos à noite, acreditando que cada barulho do lado de fora podia significar a chegada de enviados do rei para trazer DESCANSO, ou seja, uma execução real.

Mas havia um segredo para a longevidade do reinado de Gustaff: ele nunca deixou de atualizar, pessoalmente, o dicionário do reino. Dez anos depois de ser coroado, ele anunciou, com pompa e circunstância, sua obra magna: a Versão Definitiva do Dicionário Oficial. Nessa versão, a palavra REI passou a significar DEUS, GUSTAFF se tornou INVENCÍVEL, e ESCRAVIDÃO passou a querer dizer LIBERDADE. Com o lançamento dessa versão, Gustaff I, o Deus Invencível, libertou todo o seu povo, para sempre.   

Para George Orwell

domingo, 22 de março de 2020

O EFEITO ÁGABO – A Igreja e as crises globais





O livro de Atos nos relata a vez em que o profeta Ágabo previu, pelo Espírito, que uma grande fome viria sobre todo o mundo. Essa profecia se cumpriu alguns anos depois. Antes disso, porém, com base nessa previsão, os cristãos juntaram recursos financeiros para socorrer os irmãos que sofreriam com essa fome na região da Judeia.

É curioso perceber que a igreja, ao receber o alerta do profeta, não se uniu em oração para repreender a tal fome. O motivo eu desconheço. Talvez o profeta tenha recebido, junto com a profecia, a revelação de que a situação não poderia ser mudada com orações. Ainda assim, havia um propósito na previsão: que os irmãos se preparassem para ajudar as pessoas que viriam a sentir o impacto da fome. Provavelmente, os mais pobres.

A Igreja de hoje, em todo o mundo, está diante de uma realidade que guarda similaridades com aquela descrita em Atos. Uma emergência de amplitude global, que está trazendo consequências para praticamente cada pessoa na face da terra. Devemos orar, é claro. Mas será que não está na hora de fazermos algo além? A Igreja, ao longo da história, tem marcado o mundo através do acolhimento aos necessitados, daqueles que se encontram em situação de total desamparo. É por isso que a Igreja criou santas casas de misericórdia, orfanatos e leprosários. É por isso que tivemos São Francisco de Assis e Madre Tereza de Calcutá.

Esse é um momento em que o mundo precisa não só de respostas, mas também de ajuda. As previsões mais otimistas indicam que teremos não só mais desemprego em um futuro próximo, mas também que o poder de compra de grande parte da população vai diminuir drasticamente durante alguns meses. Talvez seja o momento da Igreja agir mais como Igreja, tocando um mundo assustado e necessitado com boas obras. Historicamente, a Igreja costuma funcionar melhor quando olha pra fora, ao invés de apenas para dentro. Existe a oportunidade de sermos uma bênção ainda maior para o mundo, sendo Jesus na vida de muitas pessoas. Iremos aproveitá-la?



quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

É BONITINHO, MAS NÃO É BÍBLICO (Parte I) - “Deus não une pessoas, Ele une propósitos”





É BONITINHO, MAS NÃO É BÍBLICO (Parte I)

“Deus não une pessoas, Ele une propósitos”

A afirmação acima, embora muito popular no meio evangélico (principalmente em celebrações de casamentos) carece de uma base bíblica adequada. De fato, ela vai frontalmente contra algo que o próprio Jesus falou: “Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe" (Mateus 19:6).

Jesus, neste caso, não está falando sobre uma união de propósitos, mas de pessoas, o que fica claro nos versículos anteriores: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne” (Mateus 19:4-6). Quando Jesus fala sobre essa união feita por Deus, ele está falando, então, sobre o bom e velho casamento, ou seja, duas pessoas que se unem pelos laços do matrimônio.

Mas, mesmo quando entendemos que o casamento bíblico é a união de dois seres humanos que se amam, e não de dois propósitos que coincidem, essa afirmação de Jesus pode nos levar a outro tipo de erro, no caso, a ideia de que Deus tem o costume de arbitrar sobre a vida sentimental de Seus filhos, unindo aqueles que Ele considera compatíveis: a antiga ideia da “alma gêmea”, descrita por Platão no “Banquete” e aceita, mesmo que não oficialmente, por seguidores de várias religiões, inclusive cristãos. A romântica e agradável ideia da “tampa da panela”, o pensamento reconfortante de que Deus está nos “preparando alguém”, embora possa servir de consolo para aqueles que estão esperando a chegada da “pessoa amada”, também carece de base bíblica.

Mas, você pode questionar, Jesus não havia dito que “Deus uniu”? Sim, mas ele baseia seu argumento no livro de Gênesis, citando o trecho “o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gênesis 2:24). Note que quem “deixa pai e mãe e se une à mulher” é o homem. Ele “escolhe” fazer essas coisas. O que Jesus está dizendo é que, ao fazer sua escolha na terra, a mesma é ratificada, por Deus, no céu. Essa, embora possa parecer uma afirmação estranha a princípio, bate com aquilo que Jesus ensinou a respeito da concordância: “Em verdade vos digo: Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu; e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu. Ainda vos digo mais: Se dois de vós na terra concordarem acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus” (Mateus 18:18,19).

Que fantástico! Deus aprova o casamento e o considera consumado a partir da concordância do casal, na terra. O casamento é, assim, o resultado de uma escolha humana, que é ratificado espiritualmente por Deus. “Mas, será que Deus já não tem alguém preparado pra mim?”, você poderia questionar. Esse conceito, embora pareça espiritual, não tem bases bíblicas fortes, principalmente no Novo Testamento. No Velho Testamento temos UMA situação em que Deus claramente ajudou uma pessoa a encontrar uma esposa: no caso, Isaque, cuja mulher, Rebeca, foi trazida de longe, de sua parentela, através da ação de Jeová, que orientou o servo de Abraão a encontrar os parentes desse último e sua futura nora. Mas, mesmo neste caso, percebemos que a vontade de Rebeca foi necessária para que o casamento acontecesse: “Chamaram, pois, a Rebeca, e lhe perguntaram: ‘Irás tu com este homem?’; Respondeu ela: 'Irei'” (Gênesis 24:58). Deus agiu no sentido de encontrar a parentela de Abraão, mas o casamento seria resultado da vontade dos noivos, como esclareceu o próprio Abraão: “Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não farás meu filho tornar para lá” (Gênesis 24:8).

Mas, hoje, vivemos no e de acordo com o Novo Testamento. E o que ele diz sobre casamento? A orientação que o apóstolo Paulo (aquele que não era casado e, ainda assim, era completo e satisfeito, contrariando esse outro pensamento enraizado na cultura evangélica, de que as pessoas precisam casar para serem felizes) dá para as viúvas que desejam se casar vale para qualquer um que esteja procurando um companheiro de vida: “A mulher está ligada a seu marido enquanto ele viver. Mas, se o seu marido morrer, ela estará livre para se casar com quem quiser, contanto que ele pertença ao Senhor” (I Coríntios 7:39). Que maravilha! A mulher deve se casar com quem QUISER! “Mas não é com quem o Espírito indicar, ou o pastor, ou o profeta”? Não, é com quem a gente QUISER. Quantos sofrimentos teriam sido evitados ao Corpo de Cristo se essa simples orientação tivesse sido obedecida. Podemos casar com quem quisermos, desde que ambos compartilhem da mesma fé (por motivos óbvios). Quão libertadora é essa palavra!

“Mas, se não existe essa tal pessoa certa pra mim, como saber se o meu casamento vai dar certo?” Uma boa resposta talvez seja essa: “um casamento não ‘dá certo’, NÓS fazemos ele dar certo”. Com ajuda de Deus, é claro. É como se o casamento fosse uma casa, que o casal constrói. O material de construção, eles escolhem. Alguns o fazem com o que aprenderam dos pais, de pessoas que respeitam, de livros que leram, de conselhos de amigos, daquilo que viram nos filmes e nas novelas. O material, sendo de boa ou baixa qualidade, é o que eles terão pra trabalhar. Mas todos sabemos que, mesmo que o material seja bom, ele sozinho não faz uma habitação. É o trabalho duro que levanta a construção. O casamento é muito parecido com essa ilustração. É um trabalho diário, e que aos poucos vai se tornando uma casa. Uma casa pode ser até bonita (exigiu muito esforço), mas, se não foi feita com material de qualidade, não resistirá ao tempo e acabará apresentando rachaduras, podendo até cair. Já uma casa pode ser feita com bom material e mesmo assim não crescer, caso não haja esforço envolvido, e poderá se tornar apenas uma quitinete, resistente, mas sem grandes atrativos. Nós, que somos casados e cristãos, temos a faca e o queijo na mão. Podemos escolher o melhor material (a Palavra de Deus), rejeitar o material de segunda, e botarmos a mão na massa para fazermos para nós mesmos uma mansão onde poderemos passar os melhores dias de nossas vidas. Cada esforço, cada perdão, cada palavra de consolo, carinho e ânimo se tornarão tijolos que, aos poucos, farão de nossos casamentos empreendimentos de sucesso. Nenhum casamento é algo “feito”, ele é sempre um processo. É onde a matemática de Deus mostra o quanto é maravilhosa e surpreendente: um mais um, no casamento, é igual a um, mas também é três, quando Jesus afirma que “onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles" (Mateus 18:20).




sábado, 30 de novembro de 2019

E SE NÃO FOSSE PELA FÉ?





E SE NÃO FOSSE PELA FÉ?

Nós, que somos cristãos, ou seja, que decidimos, um belo dia, viver nossas vidas partindo do princípio de que existe um Deus sábio, todo-poderoso e perfeito, e que além de tudo isso decidiu nos amar, e que ainda por cima enviou seu Único Filho (que também é Deus, todo poderoso e perfeito) para morrer em nosso lugar, não somos estranhos à ideia da “fé”.

Fomos devidamente informados de sua importância: sabemos que o “justo” [ou seja, aquele que é considerado digno de ter um relacionamento com Deus] vive por essa tal fé (foi baseado nessa certeza, inclusive, que Lutero, um jovem monge alemão seguidor da Ordem de Santo Agostinho resolveu romper com toda a ideia de salvação pelas obras presente em sua época e inaugurar uma nova, baseada na sola fide – somente pela fé) [Romanos 1:17]; sabemos que, sem essa fé, é IMPOSSÍVEL agradar a Deus, isso escrito em um livro que considera “todas as coisas possíveis” (apenas para o que crê, é claro, o que garante a integridade lógica do conjunto que abriga, simultaneamente, essas duas afirmações) [Hebreus 11:6 e Marcos 9:23]; e também entendemos que a fé, ao invés de ser um sentimento, pode ser definida simplesmente como uma certeza daquilo que não pode ser visto, uma definição ao mesmo tempo simples e avassaladora, uma vez que essa noção de fé nos obriga a colocar em um plano inferior justamente aquilo em que aprendemos a acreditar desde que nos entendemos por gente: nossos sentidos físicos [Hebreus 11:1].

Não há dúvidas de que viver pela fé, ou mesmo apenas ter fé, é bastante desafiador. É preciso esforço para crer naquilo que não podemos comprovar com nossos olhos, ouvidos ou tato. É necessária uma vontade resoluta para irmos contra aquilo que nossos corpos nos apresentam como sendo a pura verdade, verificável a olho nu. Temos que acreditar (e viver como se acreditássemos) que existe um mundo invisível e inverificável, o qual não pode ser vislumbrado ou fotografado (nem mesmo com tecnologia avançada), onde passaremos a eternidade, assim que esse mundo visível deixar de existir, seja apenas para nós (em nossa morte física) ou para todos (na Segunda Vinda de Jesus). Sim, a vida pela fé implica não só em acreditarmos em algo não comprovado ocorrido no passado, mas também em alguma coisa que vai ocorrer em um futuro indefinido e que vai mudar tudo o que conhecemos. “Haja fé”, diria alguém.

O desafio de viver pela fé pode nos fazer perguntar: “afinal, por que tanta dificuldade?” É realmente necessária, para que sejamos salvos do inferno (uma realidade eterna e horrível, também inverificável), essa “vida de fé”? Não seria mais fácil (e justo), já que estamos falando de um Deus bom, perfeito e amoroso, e que além disso garante querer que todos sejam salvos [I Timóteo 2:4], que as chances fossem ampliadas pelo fornecimento de provas mais “qualificadas”? Qual seria o problema de conseguirmos enxergar, mesmo que seja apenas algumas vezes na vida, a figura do Criador? E se Ele se mostrasse um pouquinho, talvez Sua silhueta gigante no céu, uma pegada quilométrica no deserto do Saara? Ou, quem sabe, se pudéssemos dar uma olhadinha no pós-vida, as delícias do céu ao lado de Cristo ou os tormentos do Hades e o sofrimento dos condenados? [Lucas 16] Não seria mais fácil crer em Cristo e em Sua salvação se as coisas fossem mais claras?

DESCRENDO EM UM DEUS VISÍVEL

Para responder essas perguntas, talvez seja interessante voltar para um tempo onde a existência ou não de um criador não chegava a ser uma questão. Veja, no Jardim do Éden, Deus podia ser visto, ouvido, e caminhadas ao Seu lado faziam parte da rotina de toda a humanidade: Adão e Eva, no caso. Conhecendo e convivendo com Deus, era óbvio que a fé do Primeiro Casal não era investida para que fosse possível crer na existência de um Deus invisível, como acontece conosco hoje, pelo menos entre aqueles que nunca tiveram uma visão do criador (grupo em que, infelizmente, ainda me encaixo).

Veja, estamos falando de pessoas que viam Deus diariamente, e ainda podiam comprovar sua bondade, afinal, tinham todas as suas necessidades supridas por esse criador, inclusive a de companhia. Ainda assim, vemos que o que iniciou a queda desse casal foi uma questão de falta de fé.

Vamos lembrar que, segundo o Apóstolo Paulo (alguém que podemos considerar um intérprete confiável do Velho Testamento), Adão não foi enganado, mas sim Eva [I Timóteo 2:14]. Foi assim: o diabo, inventor das Fake News, possuiu uma serpente e, através dela, incutiu na mulher duas dúvidas, ambas envolvendo o caráter do Criador. Primeiro, a serpente afirmou que Deus havia mentido (“certamente não morrerão” - Gênesis 4:4), e, em seguida, sugeriu que Ele não era tão bom assim, inclusive não querendo que os seres humanos atingissem seu pleno potencial, pois isso Lhe provocaria ciúmes [Gênesis 3:5]. Foi o suficiente para que a mulher cedesse à tentação e, a seguir, induzisse o homem a fazer o mesmo. Onde falhou a fé da mulher? Falhou exatamente onde poderia falhar: em crer no invisível. Embora a existência de Deus pairasse acima de qualquer suspeita, Seu caráter não podia ser visto. Podia, no máximo, ser percebido (pelas Suas obras em favor do ser humano), mas, para acreditar que Deus era exatamente o que Ele dizia ser (bom), era necessário fé. E foi essa que faltou à mulher.

Perceba, se acreditamos que Deus é justo, precisamos crer que todas as suas escolhas seguem o critério da justiça. E a fé que Eva e Adão tiveram que desenvolver para se manter no Paraíso é semelhante à fé que necessitamos para entrar nele. Crer na existência de Deus não é capaz de nos salvar. Tiago, meio-irmão de Jesus, deixa isso claro quando afirma que a fé que Deus existe é tão inútil para salvar os homens quanto se mostra para a salvação dos demônios. “Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem — e tremem!”, ele afirma no segundo capítulo de sua carta, que poderíamos traduzir da seguinte forma, sem prejuízo do sentido: “Você acredita em Deus? Grande coisa! Os demônios também, e nem por isso deixam de ser demônios”.

O importante não é crer na existência de Deus, mas em Seu caráter. E essa necessidade existiria mesmo se Deus estivesse governando o mundo agora, direto de Jerusalém, transmitindo seus mandamentos pela TV ou em lives do Facebook. De fato, a Bíblia nos mostra que, ao final de mil anos de um reinado físico e visível do próprio Jesus Cristo, uma parte da população será enganada pelo diabo para combater o próprio Deus na batalha final, mesmo experimentando Sua bondade por tanto tempo [Apocalipse 20]. Como o diabo poderá enganar as pessoas, se não for em relação ao caráter, a própria natureza invisível de Deus?

JÁ QUE NÃO TEM JEITO

Podemos perceber que, de fato, não existe a opção de “não viver pela fé”. Mesmo que as coisas fossem diferentes do que são, e o mundo invisível pudesse ser percebido por todos, uma parte (e justamente a parte importante) sempre se manteria invisível. Uma vida em que não houvesse necessidade de fé, em última análise, só seria possível para aqueles que fossem oniscientes. E dificilmente um ser onisciente poderia ser considerado humano. A própria noção de livre arbítrio, como o entendemos, seria difícil de aplicar a um ser com essas características. Mas acho que essa é uma discussão pra outro momento.

Por enquanto, podemos resumir as coisas adotando o conselho encontrado em Hebreus 11:6 - para nos aproximarmos de Deus precisamos crer que Ele existe (fé na existência) e que Ele recompensa os que O buscam (fé no caráter). E para desenvolvermos essa fé, só mesmo através da Bíblia, já que a fé vem pelo “ouvir, e ouvir a Palavra de Deus” [Romanos 10:17]. Opa, quer dizer então que a prova que temos que a Bíblia traz fé é que está escrito na própria Bíblia? Exatamente! De alguma forma, Deus colocou a fé e a prova da fé juntas no mesmo lugar, de forma que a Escritura atesta e confirma a Escritura. E isso também é fé.




quarta-feira, 3 de outubro de 2018

CONTO #6: C.E.U.






A reunião transcorria normalmente no último andar do prédio que servia de sede para uma importante multinacional que tinha como principal ramo de atividades o desenvolvimento de aplicativos para celular. Quando o CEO da empresa entrou na sala, os executivos e executivas, devidamente engravatados, pararam imediatamente de conversar. Todos tinham os olhos fitos nele quando o homem se sentou calmamente na cabeceira da comprida mesa de reuniões e, com um sinal de cabeça, ordenou que as luzes fossem apagadas. Quase imediatamente surgiu, em um telão de LED localizadas às suas costas, as letras “C.E.U.”.

“Isso, senhores e senhoras, é o nome do novo produto que estivemos desenvolvendo em segredo nos últimos 18 meses. Temos plena confiança de que será um sucesso fenomenal, e esperamos que, em breve, ele se torne o carro-chefe de nossa empresa”, anunciou, sorridente e enigmático, enquanto passeava o olhar entre os presentes. “Para explicar melhor o nosso novo lançamento, gostaria de chamar o Almeidinha”. Imediatamente um rapaz franzino, que parecia vestir o terno de um parente mais velho (e mais gordo), se levantou e, parando em frente ao telão, começou a falar com uma voz levemente aguda, como a de alguém que ainda estivesse lutando com as transformações da puberdade:

- C.E.U. é uma sigla para Centro de Entretenimento Universal. Trata-se de uma plataforma totalmente interativa, colorida, que se estenderá de maneira ilimitada sobre a cabeça do usuário, em uma amplitude de 360º. Para dar uma ideia melhor da utilização da nossa plataforma, irei apresentar a vocês os nossos produtos principais, que chamamos de “eventos”. O primeiro evento, denominado “nascer do sol” ou “alvorada”, será transmitido todos os dias, entre 5 e 6 horas da manhã. Trata-se de um grande espetáculo visual, em que diversas cores tomam conta da plataforma, formando imagens absolutamente impressionantes, para o deleite dos usuários. O evento terá uma duração aproximada de uma hora, e, o mais importante, será sempre inédito, nunca repetindo o padrão de imagens e cores. O segundo evento diário, que gostamos de chamar de “pôr do sol” ou, simplesmente, “crepúsculo”, é similar ao primeiro, mas acontecerá em um horário diferente, entre 17 e 18 horas. Até aqui, alguma pergunta?



Levou alguns segundos para que um dos executivos (no caso, a vice-presidente executiva do setor de Marketing) quebrasse o silêncio absoluto: “Eu tenho um problema com relação a esses eventos. Se eu entendi bem, você disse que eles seriam transmitidos sempre no mesmo horário. Bem, as recentes pesquisas de mercado indicam que esse tipo de oferta está ultrapassado. Os serviços de streaming mostram que o consumidor aprendeu a estar no poder, ou seja, ele escolhe a hora de consumir. Um produto desses vai contra todas as recentes leis do mercado. Não é possível mudar isso, ou pelo menos vendermos um pacote premium, em que o usuário possa escolher a hora em que vai consumir essa “alvorada” e esse “prepúcio”?

- “Crepúsculo” – corrigiu Almeidinha, ajeitando os óculos. – Infelizmente, essa não é uma opção. As transmissões só poderão ser feitas nos horários determinados.

- Uma outra pergunta – disse, levantando uma das mãos, o diretor-geral de Relações Internacionais – e durante o resto do dia? O que fará com que os consumidores utilizem nosso produto durante as horas “entre-eventos”?

- Para isso, contamos com algo que o nosso departamento de criação batizou de “nuvens”.

- “Nuvens”? – questionou a supervisora-chefe de Novas Mídias.

- São corpos flutuantes, de tamanhos variados, quase sempre brancos, que estão em constante movimento por toda a plataforma. O interessante é que estas “nuvens” estão sempre mudando de forma, além de se fundirem e se separarem várias vezes por hora. Ao fazer isso, elas formam as mais variadas figuras, como animais, pessoas e objetos. Nossos testes com crianças demonstram que elas podem ficar horas, todos os dias, adivinhando formas no painel formado por essas “nuvens”. Além disso, o algoritmo que utilizamos garante que as formas nunca se repitam, nem por uma única vez.



- E durante a noite? – perguntou a diretora de Assuntos Estratégicos – A falta de iluminação não irá prejudicar a visualização das nuvens?

- Em parte, sim – explicou Almeidinha, esboçando um leve sorriso – mas, para o período noturno, desenvolvemos um outro produto, que chamamos de “estrelas”. São pequenos pontos luminosos, de tamanhos e intensidades diferentes, que ficam ativos durante toda a noite. Os usuários podem usar sua imaginação para “ligar os pontinhos”, formando diversas imagens, com possibilidades de combinações infinitas. Nossas pesquisas de satisfação demonstraram que o produto será muito popular entre crianças e casais de namorados.



- Tudo está parecendo muito bom – começou o diretor-executivo responsável pela área de Aquisições – mas estou percebendo um problema aí. A utilização do produto certamente ficará comprometida nos dias chuvosos, já que ninguém vai querer se molhar para ficar vendo esse “C.E.U.”.

- Já pensamos nisso. Para manter o interesse dos usuários durante a chuva criamos um moderno e tecnológico show de luzes, que batizamos de “relâmpagos”, ou “raios”. São flashs gigantescos que causam uma sensação de desorientação nos consumidores, mesmo quando estão dentro de casa. Para que o efeito seja completo, os “relâmpagos” são acompanhados por estrondos muito altos, que o setor de criação chamou de “trovões”. Os barulhos são tão altos que se tornam impossíveis de ignorar.

- Mas esse tipo de produto pode ser um pouco ofensivo para alguns usuários, não acham? – indagou a responsável pelo Jurídico, já pensando nos possíveis processos – Como impedir que as crianças fiquem traumatizadas com esse tipo de abordagem?

- Talvez – começou a dizer, timidamente, um estagiário chamado Irisberto, que só estava ali para trazer café – poderíamos liberar, depois das chuvas, uma espécie de semi-círculo formado por várias cores, que iria preencher o plano de fundo da plataforma. Pode ser uma maneira de consolar os mais novos.

Imediatamente, todos os presentes começaram a gargalhar diante da ideia absurda. Almeidinha, depois de se controlar, disse, apenas por educação, que a sugestão estava anotada e que iriam trabalhar nela.




- Pois bem, agora vocês já conhecem a ideia geral do produto. Podemos passar para as dúvidas?

- Acho que a principal pergunta aqui é: qual será o preço desse produto? – perguntou, claro, o diretor-financeiro.

- Bom, a ideia é que ele seja disponibilizado gratuitamente para todos. É por isso que ele carrega a palavra “Universal” no nome.

- Então poderá ser baixado para qualquer sistema operacional?

- Não, não – começou a responder o Almeidinha, agora bem mais relaxado, já que a apresentação havia sido concluída – não será baixado para celulares ou computadores. Ele estará disponível para visualização em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora, por qualquer pessoa.

- Então, como poderemos lucrar com ele?  – questionou, séria, a supervisora de Vendas – Vamos vender espaço para publicidade?

- Bom, foram feitos alguns testes com a utilização de dirigíveis e aviões com faixas, mas nada se mostrou particularmente eficaz. Na maior parte do tempo, o C.E.U. será exibido sem comerciais.

- Mas, isso não parece fazer sentido – murmurou, incrédulo, o vice-presidente de Expansão – um produto desses, com essa qualidade, disponível gratuitamente e 24 horas por dia, sem publicidade e sem assinaturas premium? Como vamos impedir que esse “C.E.U.” roube a atenção de todos? Como vamos fazer para que os outros aplicativos de celular continuem a ser utilizados? Parece um tiro no pé lançar algo assim.

Nesse momento o CEO, que ficara em silêncio durante toda a apresentação, se levantou repentinamente. Todos o acompanharam com o olhar enquanto ele se dirigiu para a janela da sala de reuniões, que estava com as amplas persianas fechadas.

- Acho que vocês precisam ver o produto em funcionamento para terem uma ideia real de suas possibilidades. Vou apresentar para vocês uma versão beta do “C.E.U.”. Apenas mantenham em mente que a versão final será uma plataforma bem mais ampla, se estendendo em 360º até o infinito.

Dito isso, o CEO abriu as persianas, revelando aos presentes uma visão maravilhosa, absurdamente azul e cheia de grandes corpos brancos flutuantes, que aparentavam uma textura de algodão-doce. “Isso, meus amigos, é o C.E.U.”.

Todos ficaram maravilhados, e começaram lentamente a se aproximar do grande vidro transparente que os separava do mundo exterior. De repente, o diretor-financeiro, um senhor de meia idade que raramente sorria, começou a chorar, soluçando.

- O que aconteceu, Ferreira? – perguntou, paternal, o CEO, já preparado para esse tipo de reação.

- Acho...acho que estou enxergando um coelho – respondeu, apontando para um pequeno corpo branco que flutuava suavemente, com uma textura que lembrava demais a de um algodão-doce.