Muito popular nos Estados Unidos desde
a década de 1970, a comédia stand-up (chamada
também de "comédia cara limpa" no Brasil) é caracterizada por
apresentar um humor que não envolve piadas, imitações e nem personagens. Os
comediantes de stand-up se apresentam
sozinhos no palco, vestidos normalmente, utilizando apenas um microfone. Os
grandes mestres do gênero têm como principal virtude perceber e expor os
aspectos absurdos das coisas que fazemos todos os dias, provocando assim o riso
e a reflexão da plateia. Esse tipo de humor coincide, de certa forma, com a
definição do escritor George Orwell: “o objetivo da piada não é degradar o ser
humano, mas lembrar que ele já é degradado". O humor, teria, portanto, essa missão de
expor para nós mesmos o quanto somos ridículos, abrindo nossos olhos no
processo.
É dentro dessa perspectiva que
podemos encarar a presença do humor nos discursos de Jesus. Não se trata de
dizer que o Sermão da Montanha seja o "maior show de stand-up da história" (embora essa fosse uma afirmação engraçada),
mas é possível perceber como Jesus utilizava o humor em seus ensinamentos para
nos mostrar como muitas das atitudes e pensamentos que encaramos como normais
são na verdade absurdos, quando comparados à Verdade que Cristo veio revelar
aos homens.
A utilização do humor como
instrumento de reflexão na Bíblia certamente não começou em Jesus. No Velho
Testamento, podemos encontrar alguns exemplos de homens de Deus usando o humor
para demonstrar o absurdo da idolatria, por exemplo. É famosa (e divertida) a
passagem em que Elias confronta os profetas de Baal e usa o deboche para
demonstrar (nem tanto para os oponentes, mas para o público que acompanhava a
disputa) que o deus fenício não era o Deus verdadeiro. Ao ver os profetas
clamando, inutilmente, pela resposta do falso deus, Elias "sugere"
que talvez ele não esteja respondendo por estar "meditando, ou ocupado, ou
viajando. Talvez esteja dormindo e precise ser despertado" (I Reis 18:27).
Imagino que a "plateia" deve ter dado muitas risadas ao assistir o
espetáculo, além de sair com a convicção de que Baal não passava de uma fraude.
O profeta Isaías também usou o
humor para demonstrar o absurdo da adoração aos ídolos. Ele ilustra esse
argumento com a figura de um homem que derruba uma árvore e utiliza parte da
madeira para fazer uma fogueira e se aquecer. Com o restante da madeira ele
constrói um ídolo, se prostra diante dele e declara: "Salva-me; tu és meu
deus" (Isaías 44:17). Colocado dessa forma, é realmente ridícula a ideia
de um pedaço de madeira, que por pouco não foi parar no fogo, ser adorada pelo
próprio homem que derrubou a árvore e moldou o ídolo. Isaías consegue, assim,
utilizar o humor para expor o erro e provocar a reflexão.
Chegando em Jesus e em seu Sermão da Montanha, percebemos que o alvo de seu humor é, justamente, aquilo que costuma roubar o nosso humor: as preocupações dessa vida. O Mestre faz uma pergunta muito simples: "Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?" (Lucas 12:25) Jesus expõe, assim, o ridículo (e a inutilidade) de se preocupar. De fato, por mais que nos preocupemos, não conseguimos mudar as coisas mais simples da vida. Isso fica ainda mais claro na declaração de Jesus encontrada no versículo seguinte: "Visto que vocês não podem sequer fazer uma coisa tão pequena, por que se preocupar com o restante?" Talvez essa fala de Jesus não tenha provocado gargalhadas, mas certamente alguém que ouvia o sermão deve ter dado um largo sorriso ao entender a declaração e verificar o quanto era ridículo e absurdo ficar preocupado.
Chegando em Jesus e em seu Sermão da Montanha, percebemos que o alvo de seu humor é, justamente, aquilo que costuma roubar o nosso humor: as preocupações dessa vida. O Mestre faz uma pergunta muito simples: "Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?" (Lucas 12:25) Jesus expõe, assim, o ridículo (e a inutilidade) de se preocupar. De fato, por mais que nos preocupemos, não conseguimos mudar as coisas mais simples da vida. Isso fica ainda mais claro na declaração de Jesus encontrada no versículo seguinte: "Visto que vocês não podem sequer fazer uma coisa tão pequena, por que se preocupar com o restante?" Talvez essa fala de Jesus não tenha provocado gargalhadas, mas certamente alguém que ouvia o sermão deve ter dado um largo sorriso ao entender a declaração e verificar o quanto era ridículo e absurdo ficar preocupado.
Para ilustrar ainda mais a falta de sentido das preocupações,
Jesus utiliza as figuras dos pássaros e das plantas, mostrando que não havia
sentido algum em pensar que o Deus Pai gastaria todos os seus esforços cuidando
de flores e animais e negligenciando os seres humanos. Outras figuras de
linguagem usadas por Jesus também traziam sua graça (o cego que guiava o outro
pela mão, o homem ostentando uma trave no olho e pedindo para tirar o cisco no
olho de seu próximo), mas sempre com o mesmo objetivo: revelar a loucura que é
a vida vivida fora da vontade de Deus. Jesus enxergava as coisas como elas são,
já que as ilusões do mundo presente não o enganavam. Diante desse quadro, o
nosso Mestre utilizou uma linguagem simples e bem-humorada para se aproximar
daqueles que o ouviam, com o objetivo de trazer reflexão e luz. E, nesse
processo, levou (e ainda tem levado) multidões a conhecerem a verdadeira
alegria.
Quando leio o Sermão da Montanha ou outro discurso de Jesus,
tento, apenas como exercício, imaginar não um ambiente sério, grave, com as
pessoas em silêncio absoluto prestando atenção naquelas palavras ditas pelo
Salvador. Tento imaginar um ambiente alegre, descontraído, com as pessoas
fazendo comentários e reagindo, ora com sorrisos, ora com assombro, às palavras
ditas pelo Mestre. Talvez seja também por isso que o evangelho afirma que as
multidões ficavam "maravilhadas com o seu ensino, porque ele as ensinava como quem tem autoridade,
e não como os mestres da lei" (Mateus 7:28-29).


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