quarta-feira, 22 de agosto de 2018

JESUS - O MAIOR COMEDIANTE QUE JÁ EXISTIU





Muito popular nos Estados Unidos desde a década de 1970, a comédia stand-up (chamada também de "comédia cara limpa" no Brasil) é caracterizada por apresentar um humor que não envolve piadas, imitações e nem personagens. Os comediantes de stand-up se apresentam sozinhos no palco, vestidos normalmente, utilizando apenas um microfone. Os grandes mestres do gênero têm como principal virtude perceber e expor os aspectos absurdos das coisas que fazemos todos os dias, provocando assim o riso e a reflexão da plateia. Esse tipo de humor coincide, de certa forma, com a definição do escritor George Orwell: “o objetivo da piada não é degradar o ser humano, mas lembrar que ele já é degradado".  O humor, teria, portanto, essa missão de expor para nós mesmos o quanto somos ridículos, abrindo nossos olhos no processo.

É dentro dessa perspectiva que podemos encarar a presença do humor nos discursos de Jesus. Não se trata de dizer que o Sermão da Montanha seja o "maior show de stand-up da história" (embora essa fosse uma afirmação engraçada), mas é possível perceber como Jesus utilizava o humor em seus ensinamentos para nos mostrar como muitas das atitudes e pensamentos que encaramos como normais são na verdade absurdos, quando comparados à Verdade que Cristo veio revelar aos homens.
A utilização do humor como instrumento de reflexão na Bíblia certamente não começou em Jesus. No Velho Testamento, podemos encontrar alguns exemplos de homens de Deus usando o humor para demonstrar o absurdo da idolatria, por exemplo. É famosa (e divertida) a passagem em que Elias confronta os profetas de Baal e usa o deboche para demonstrar (nem tanto para os oponentes, mas para o público que acompanhava a disputa) que o deus fenício não era o Deus verdadeiro. Ao ver os profetas clamando, inutilmente, pela resposta do falso deus, Elias "sugere" que talvez ele não esteja respondendo por estar "meditando, ou ocupado, ou viajando. Talvez esteja dormindo e precise ser despertado" (I Reis 18:27). Imagino que a "plateia" deve ter dado muitas risadas ao assistir o espetáculo, além de sair com a convicção de que Baal não passava de uma fraude.

O profeta Isaías também usou o humor para demonstrar o absurdo da adoração aos ídolos. Ele ilustra esse argumento com a figura de um homem que derruba uma árvore e utiliza parte da madeira para fazer uma fogueira e se aquecer. Com o restante da madeira ele constrói um ídolo, se prostra diante dele e declara: "Salva-me; tu és meu deus" (Isaías 44:17). Colocado dessa forma, é realmente ridícula a ideia de um pedaço de madeira, que por pouco não foi parar no fogo, ser adorada pelo próprio homem que derrubou a árvore e moldou o ídolo. Isaías consegue, assim, utilizar o humor para expor o erro e provocar a reflexão. 

Chegando em Jesus e em seu Sermão da Montanha, percebemos que o alvo de seu humor é, justamente, aquilo que costuma roubar o nosso humor: as preocupações dessa vida. O Mestre faz uma pergunta muito simples: "Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?" (Lucas 12:25) Jesus expõe, assim, o ridículo (e a inutilidade) de se preocupar. De fato, por mais que nos preocupemos, não conseguimos mudar as coisas mais simples da vida. Isso fica ainda mais claro na declaração de Jesus encontrada no versículo seguinte: "Visto que vocês não podem sequer fazer uma coisa tão pequena, por que se preocupar com o restante?" Talvez essa fala de Jesus não tenha provocado gargalhadas, mas certamente alguém que ouvia o sermão deve ter dado um largo sorriso ao entender a declaração e verificar o quanto era ridículo e absurdo ficar preocupado.

Para ilustrar ainda mais a falta de sentido das preocupações, Jesus utiliza as figuras dos pássaros e das plantas, mostrando que não havia sentido algum em pensar que o Deus Pai gastaria todos os seus esforços cuidando de flores e animais e negligenciando os seres humanos. Outras figuras de linguagem usadas por Jesus também traziam sua graça (o cego que guiava o outro pela mão, o homem ostentando uma trave no olho e pedindo para tirar o cisco no olho de seu próximo), mas sempre com o mesmo objetivo: revelar a loucura que é a vida vivida fora da vontade de Deus. Jesus enxergava as coisas como elas são, já que as ilusões do mundo presente não o enganavam. Diante desse quadro, o nosso Mestre utilizou uma linguagem simples e bem-humorada para se aproximar daqueles que o ouviam, com o objetivo de trazer reflexão e luz. E, nesse processo, levou (e ainda tem levado) multidões a conhecerem a verdadeira alegria.

Quando leio o Sermão da Montanha ou outro discurso de Jesus, tento, apenas como exercício, imaginar não um ambiente sério, grave, com as pessoas em silêncio absoluto prestando atenção naquelas palavras ditas pelo Salvador. Tento imaginar um ambiente alegre, descontraído, com as pessoas fazendo comentários e reagindo, ora com sorrisos, ora com assombro, às palavras ditas pelo Mestre. Talvez seja também por isso que o evangelho afirma que as multidões ficavam "maravilhadas com o seu ensino, porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os mestres da lei" (Mateus 7:28-29).


   

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