O presente artigo tem como objetivo
abordar um pouco da história da BC Comics, editora de histórias em quadrinhos
(no original, comics; em Portugal, banda desenhada) criada em 1961, com
a publicação de sua primeira revista e carro-chefe, Rei Davi (King David).
Porém, para falar de seu surgimento e crescimento extraordinário na indústria,
é necessário, antes, abordar a editora que era, até então, a dominante no
mercado de histórias em quadrinhos bíblicas, a AD Comics.
A AD Comics, como se sabe, era uma
editora focada em histórias bíblicas que retratavam personagens do Novo
Testamento (daí o seu nome, uma alusão a A.D., ou Anno Domini). Seu
carro-chefe, desde o fim dos anos 1930, era a revista Acts Comics
(“quadrinhos de atos”, em referência ao livro bíblico Atos dos Apóstolos), que
retratava, através de várias histórias curtas, as aventuras dos doze apóstolos
de Cristo ocorridas após Sua morte e ressurreição, mesclando relatos contidos
na bíblia com narrativas históricas, da tradição, apócrifas e mesmo algumas
totalmente fictícias, mas sempre trazendo uma “moral” para os seus leitores.
Foi na Acts Comics que surgiu
aquele que, até hoje, é o personagem mais popular da editora: o Apóstolo Paulo,
que, em poucos anos, ganhou revista própria (Paul, the Apostle #1 é de
março de 1941) e, posteriormente, deu origem à série derivada Thrilling
Travels of Paul and Barnabas, que estreou em 1943, apresentando o popular sidekick
de Paulo, o bondoso Barnabé; na edição 50, de 1947, o título teve seu nome
mudado para Terrific Travels of Paul and Silas, com a estreia do
novo parceiro de aventuras de Paulo, o valente Silas.
No início dos anos 1950, o
personagem continua a ser um sucesso estrondoso, e chega a migrar para outros
estilos. Em outubro-novembro de 1952, por exemplo, foi lançada a primeira
edição de Paul and John Mark (algumas vezes, John and Paul Mark,
ou Paul and Mark John, ou ainda Mark and Mark and Mark) uma
experiência absolutamente anárquica de Harvey Kurtzman, que retrata o jovem
ajudante de Paulo, João Marcos, como um adolescente mimado, preguiçoso e
medroso, que traz várias dores de cabeças para seu tio, o exageradamente
paciente e permissivo Barnabé, e o estourado Paulo. A revista foi um sucesso
até seu cancelamento, em 1956, motivado pelos vários problemas que enfrentou
com a censura.
Outra revista que foi um enorme
sucesso, mas também penou nas mãos dos censores, foi Saul, the Zealous
(Saulo, o zeloso), que mostrava a vida de Paulo em seus dias pré-conversão,
quando ainda era chamado de Saulo e perseguia e matava cristãos provenientes do
judaísmo. A revista estreou em 1950 e seguia a linha das várias publicações
focadas em crimes e que faziam um sucesso arrasador no início daquela década.
As histórias traziam Saulo como um personagem cruel, manipulador, e muitas
vezes eram focadas em suas vítimas, cristãos inocentes que se viam perseguidos
durante toda a trama pela sinistra figura do jovem fariseu. Normalmente,
terminavam com a morte ou prisão das pobres vítimas. Mais ou menos na mesma
época surgiu Terrifying Torments of Martyrs (1950-1955), que,
como o próprio nome diz, era focado nas mortes dos primeiros cristãos. O
título, porém, dava atenção excessiva à crueldade e aos detalhes gráficos das
torturas infligidas aos cristãos (a maioria delas, fruto da imaginação dos
criativos escritores e desenhistas que passaram pela publicação). Não é
surpresa, portanto, entender porque todos esses títulos foram cancelados em
meados dos anos 1950, como consequência direta da publicação do livro Seduction
of the Innocent (Sedução dos Inocentes), do psiquiatra alemão Fredric
Wertham, lançado em 1954 e que defendia a tese que as revistas em quadrinhos
incentivavam a delinquência juvenil.
Tudo isso foi um grande baque para a
AD Comics, que foi obrigada a cancelar vários títulos e a se reinventar em
meados dos anos 1950, como veremos no capítulo seguinte.
ERA DE PRATA
Como pudemos perceber, a outrora
todo poderosa AD Comics entrou na segunda metade da década de 1950 precisando
mudar para sobreviver. E foi exatamente o que ela fez! De uma forma ousada, o
editor principal da época, Julius Schwartz, revolucionou o principal título da
editora, Acts Comics, acrescentando a ele a palavra “now”. Assim, a
publicação deixou de abordar as histórias dos primeiros apóstolos e se
concentrou em evangelistas atuando nos tempos modernos e ajudando jovens a se
livrar das drogas e da promiscuidade, tudo dentro de uma abordagem moralista e
cristã.
Assim, em outubro de 1956 estreou a
revista Acts Now, que foi um sucesso instantâneo e deu início oficial à
chamada Era de Prata dos quadrinhos cristãos. Exatamente três anos depois, em
1959, outro título clássico da AD Comics ganhou sua reformulação: Paul, the
Apostle teve seu nome mudado para Paul in the Third Heaven (Paulo no
terceiro céu). O título, absolutamente lisérgico, se concentrava nas
experiências extracorpóreas de Paulo, descritas brevemente em II Coríntios 12.
Com muita imaginação e utilizando todas as cores possíveis, o artista e
escritor principal da nova fase da revista, Steve Ditko, transformou a revista
em um laboratório para as mais diversas experiências narrativas que exploravam
todas as possibilidades do desconhecido mundo além da matéria. O sucesso do
título foi até mesmo apontado por alguns (como o já citado Fredric Wertham)
como um dos responsáveis pela explosão do LSD e outras drogas alucinógenas na
década seguinte.
Mas a grande revolução da editora
viria em março de 1960, com o lançamento de The Real Revelations #1, que
adaptava o apocalipse descrito na Bíblia para os dias atuais, e acompanhava um
grupo inicial de sete pessoas que não foram arrebatados em sua luta contra as
pragas descritas no Novo Testamento. Bebendo pesadamente em influências que iam
dos filmes de ficção científica dos anos 1950 aos escritos de H.P. Lovecraft, o
título trazia uma profusão de monstros impossíveis, naves espaciais, dragões
super-inteligentes e os assustadores horrifying horsemen (cavaleiros
horripilantes), homens deformados vestindo couraças de fogo e enxofre e
montando cavalos com cabeças de leão e caudas que eram serpentes venenosas
(seguindo fielmente a descrição de Apocalipse 9).
Foi, de certa forma, essa nova fase
assumida pela AD Comics que permitiu o surgimento da BC Comics, alvo principal
da análise desse artigo. Afinal, foi a decisão dos editores da AD Comics de
atualizar a ambientação de suas histórias e abandonar totalmente seu caráter
histórico que deixou um vácuo no prolífico mercado das biblical comics,
vácuo esse que incentivou uma pequena editora, até então especializada em
histórias de monstros da mitologia judaica, a se aventurar na criação de um
universo compartilhado baseado nas histórias bíblicas do Velho Testamento.
ORIGENS
A editora que deu origem à BC Comics
foi a Mazel-Tov Comics, fundada no final da década de 1930 e que investiu em
inúmeros gêneros durante suas primeiras décadas de publicação. Eram publicadas
pela Mazel-Tov histórias de bombeiros, piratas e enfermeiras, entre outros
estilos mais ou menos populares na época. Em março de 1941, a editora lançou
aquele que seria, durante muito tempo, seu personagem mais famoso: o
Super-Semita (Super-Semit), criado por Hymie Simon e Jacob Kurtzberg e que, na capa de seu número de estreia, aparecia esmurrando
o próprio Hitler. O Super-Semita, que era acompanhado por um parceiro-mirim
chamado Bar Mitzvah Boy, foi um sucesso estrondoso na época, tornando-se
um símbolo patriótico durante a campanha norte-americana na Segunda Guerra
Mundial. O fim do conflito, porém, não foi bom para o Super-Semita, e, assim
como aconteceu com diversos heróis patriotas do período, sua revista foi
cancelada definitivamente no final da década de 1940.
A editora continuou publicando
histórias de gêneros diversos, até que, em meados dos anos 1950, descobriu um
nicho lucrativo: as histórias de monstros saídos da mitologia judaica. As diversas
revistas publicadas nesse período pela Mazel-Tov (Thrilling Tales,
Surprising Stories, Astounding Anthology) traziam vários seres assustadores
e fascinantes, como Baal-Zebub (um monstro de 40 metros de altura e com o corpo
formado inteiramente por moscas), Grievous Golem (um gigante de pedra criado
por um rabino enlouquecido), Lilith (uma mulher com asas, chifres e cauda de
serpente que, literalmente, devorava homens) e uma infinidade de leviatãs,
behemots e nephilins, entre outros.
O grande sucesso dessa fase deveu-se
principalmente à criatividade e prolicifidade do desenhista e arte-finalista Jacob Kurtzberg (o mesmo que, anos antes, havia sido
co-criador do Super-Semita), que conseguia desenhar várias revistas todos os
meses, sempre mantendo um alto padrão de qualidade e inovação. Um dos
principais parceiros de Kurtzberg nessa época foi o escritor Martin Lieber,
sobrinho do dono da Mazel-Tov, Martin Goodman. E foi Martin Goodman que, em
1961, encarregou a dupla de iniciar uma revolução nos quadrinhos, que começaria
justamente com a mudança do nome da editora e o lançamento de King David #1.
BC COMICS
Em novembro de 1961 foi lançada a primeira
edição de Rei Davi, marcando a mudança de nome da Mazel-Tov Comics, que a
partir daí assumiu o nome de BC Comics e passou a ter como foco aventuras
estreadas pelos grandes heróis bíblicos do Velho Testamento. O título foi um
sucesso imediato e espantoso, em grande parte por causa do talento de Jacob
Kurtzberg, que desenhava grandiosas cenas de batalha com a mesma facilidade com
que ilustrava longos diálogos entre os personagens.
Mas o traço genial de Kurtzberg não era o
único atrativo do título. A criatividade e ousadia do texto de Lieber também
chamavam atenção, fazendo de Rei Davi um título empolgante tanto nos momentos
de guerra quanto nas tensas intrigas palacianas. Ao longo das mais de 100
edições (um recorde) feitas ao lado de Kurtzberg, Lieber se empenhou em
apresentar Davi como um personagem corajoso, espirituoso, inteligente e
visionário, mas ao mesmo tempo inseguro, arrogante, impulsivo e mulherengo,
além de dado a momentos de melancolia. Esse aspecto da escrita de Lieber, que
buscava humanizar os personagens bíblicos, passou a ser a característica mais
marcante da BC Comics e seu principal diferencial em relação à maneira como a
AD Comics apresentava seus personagens, tratados como seres de moral muito
superior às dos simples mortais. Essa abordagem nova, que gerava uma grande
identificação com os leitores, aliada com altas doses de violência (dentro,
claro, do que permitia a censura da época), garantiu o sucesso de Rei Davi e
estabeleceu o padrão que seria seguido pelos demais títulos da BC Comics, ao
longo dos anos.
As altas vendas de King David não
demoraram a gerar títulos derivados, que passaram a explorar outros lados do
personagem, além de seus principais coadjuvantes. Em agosto de 1962 foi lançada
a revista Young David and Jonathan, que, como o próprio nome indicava,
trazia as aventuras vividas por Davi antes de ascender ao trono de Israel,
quase sempre acompanhado de seu mais famoso sidekick, Jônatas, filho do
invejoso rei Saul, o principal vilão do título. Cerca de um ano depois, em
setembro de 1963, estreou o popular título David´s Thirty Warriors (Os
Trinta Guerreiros de Davi), que abordava as batalhas vividas pelos integrantes
da guarda real do rei Davi, descrita brevemente no livro de II Samuel. As
histórias envolvendo os 30 eram marcadas pela criatividade dos autores
(novamente, Lieber e Kurtzberg), que passaram a utilizar vários dos monstros
publicados nas revistas da Mazel-Tov como antagonistas dos personagens
principais. Assim, Grievous Golem, Baal-Zebub e Dreadfull Dagon (um
assustador ser anfíbio gigante) voltaram em novas e ameaçadoras roupagens para
enfrentar os heróicos guerreiros israelitas. Em 1974, a revista teve seu nome
modificado para David´s Wild Warriors (Guerreiros Selvagens de Davi),
ganhou o formato magazine e passou a ser publicada em preto e branco. Todas
essas mudanças tiveram como objetivo dar mais liberdade criativa aos artistas,
já que o formato liberava o título de se enquadrar nas regras do Comics Code
Authority, que regulava o conteúdo das histórias em quadrinhos nos EUA.
Livre das amarras da censura, a Wild Warriors pôde trazer cenas mais
violentas (como decaptações e canibalismo, por exemplo) e personagens com
moralidade ambígua. A força do personagem Davi era tão grande que a BC Comics
passou a publicar, a partir de 1978, as histórias de David, the little
shepherd (Davi, o pastorzinho), primeiro em tiras de jornal e,
posteriormente, em revista própria. As histórias, voltadas principalmente para
o público infantil, traziam Davi ainda criança, quando cuidava das ovelhas de
seu pai e vivia sempre arrastando desajeitadamente uma grande harpa e uma
funda. Ele tinha como melhor amigo uma ovelha falante (embora só ele
conseguisse entendê-la) chamada Jon, com a qual travava longas conversas cheias
de reflexões a respeito do mundo adulto. O caráter poético e filosófico das
histórias do personagem lhe garantiu uma legião de fãs de todas as idades. O
sucesso de David, the little shepherd foi apontado por muitos como a
grande inspiração para a revista Calvin and Arminius (no Brasil, Calvin
e Armínio), estrelada por um menino e um leão de pelúcia e lançada em 1985 pela
AD Comics, tendo também como alvo o público infantil.
Seguindo a mesma linha de Rei Davi, com personagens falíveis e histórias
recheadas de ação, Lieber e Kurtzberg continuaram lançando títulos no início
dos anos 1960. Em maio de 1962, os leitores foram apresentados a The Smashing
Samson (O Esmagador Sansão), que retratava as batalhas do forte e corajoso
juiz de Israel contra os filisteus e outros vilões. O personagem se destacava,
principalmente, por seu temperamento estourado e pelo seu fraco por mulheres. O
sucesso de Smashing Samson foi tão grande que ele chegou a ganhar uma
série de desenhos animados chamada Young Samson and Goliath, produzida
pela Hanna-Barbera e lançada em 1967. A série, ambientada nos dias atuais,
trazia Sansão acompanhado de um leão inteligente (o Golias do título).
Em agosto de 1962 a dupla trouxe aos leitores as aventuras de Enoch,
the giant killer (Enoque, o matador de gigantes), que se passavam em um
mundo pré-diluviano, onde o bisavô de Noé lutava contra anjos rebeldes, seus
descendentes (os colossais nephilins), e até mesmo dinossauros (!!!).
Em março de 1963 foi lançado Solomon, the wiser man on the world (Salomão,
o homem mais sábio do mundo), que apresentava as histórias do rei de Israel em
sua identidade secreta, Jedidias, um próspero mercador judeu que se dedicava a
solucionar crimes misteriosos, ao estilo de um Sherlock Holmes semita. O
personagem também sofria de um grande fraco por mulheres e sua principal
antagonista era a formosa e brilhante Makeda, rainha de Sabá, que aparecia ora
como vilã, ora como interesse amoroso.
Mas foi em setembro de 1963 que a dupla criou aquela que seria o segundo
título mais popular da BC Comics, chegando muitas vezes a superar o próprio Rei
Davi: The Protectors of Everything (Os Protetores de Tudo). O grande
chamariz dos Protetores era a bizarra e inovadora ideia de unir personagens
bíblicos de várias épocas diferentes e colocá-los para enfrentar, juntos,
ameaças cósmicas e interdimensionais. O grupo era formado, a princípio, por um
jovem Moisés, recrutado quando ainda era um pastor exilado no deserto e não
pensava nem remotamente em ser o libertador de Israel (ele passou a ser o
constantemente inseguro líder de campo do grupo); um também jovem Davi, que
havia acabado de derrotar o gigante Golias e estava aprendendo as artes da
guerra; um Sansão cego, retirado das masmorras dos filisteus, mas que possuía
uma força descomunal; e o ainda adolescente aprendiz de profeta Eliseu, que
havia estreado meses antes como sidekick na revista Elijah, the
Miracle Maker (Elias, o Fazedor de Milagres). Esse grupo disfuncional foi
recrutado por Noé, o Construtor, que os capturou em diferentes períodos da
história e os levou para a sua Arca Cósmica, com a qual conseguia navegar entre
as dimensões. Ao final do primeiro arco de histórias (no qual enfrentam um
Hitler que havia vencido a II Grande Guerra em uma realidade paralela e que
decide, através da avançada tecnologia nazista de sua dimensão, viajar para
diferentes planos com o objetivo de “apagar os judeus do multiverso”, no que
ele chamava de “Solução Definitiva Definitiva”) os leitores descobrem que o
líder secreto do grupo não é ninguém menos que um envelhecido Rei Salomão, que
passou a utilizar sua inteligência inigualável para enfrentar ameaças ao
próprio continuum espaço-temporal.
O nível de
criatividade das histórias era absurdo, e o título se tornou um marco da ficção
científica, apresentando os mais diferentes e estranhos mundos. Em uma das suas
histórias mais famosas, os personagens lidam com uma realidade onde os judeus
nunca chegaram à Terra Prometida, que continuou, portanto, a ser habitada pelos
cruéis cananeus. Milênios depois, esses cananeus são a nação mais poderosa e
militarizada do mundo, e sua necessidade de oferecer sacrifícios de crianças ao
deus Moloque os faz roubar bebês de outras dimensões, já que todos os daquele
mundo já haviam sido assassinados. Em outra aventura marcante, o grupo conhece
uma dimensão onde a confusão de línguas nunca aconteceu, e assim toda a
humanidade vive em uma torre gigante com formato de pirâmide, onde habitam 3
bilhões de pessoas, divididas em andares com milhões de habitantes em cada um.
Nesse mundo, eles interferem em uma guerra travada entre o 32º andar, lar da
Tribo-nação de Judá, e o 266º andar, onde viviam os habitantes do Império
Austro-Húngaro. Eles também conheceram mundos onde o dilúvio nunca aconteceu
(em um destes, um ensandecido e imortal Caim decide dar cabo de toda a
humanidade através de plantas geneticamente modificadas, levando ao limite seus
impulsos fratricidas), onde os judeus não foram libertados do Egito (em uma das
histórias, os descendentes dos judeus, incorporados definitivamente à nação
egípcia, fazem dela o país mais tecnologicamente avançado do mundo,
transformando seu faraó, no que seria o ano 5.000 de nossa era, em um tirano interdimensional
que tenta ampliar seu domínio através de outras realidades); e até um mundo
onde Adão e Eva não chegaram a comer do fruto proibido. Nessa última história,
o Jardim do Éden se estendeu por toda a Terra, que se transformou em um planeta
de paz infinita, habitado por homens e mulheres perfeitos, além de animais
inteligentes. Na trama, milhões de habitantes desse mundo utópico passam a se
viciar em uma estranha droga alucinógena conhecida como “gevil”, traficada por
uma misteriosa sociedade secreta, cujos membros eram conhecidos apenas como
“serpentes”. Mais tarde, descobriu-se que a tal droga era feita a partir da
própria polpa das frutas apodrecidas da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal,
roubadas pelas “serpentes”. Essa
história, no entanto, jamais viu a luz do dia, porque o Comics Code Authority implicou com as alusões levantadas
pela trama, embora os autores alegassem que se tratava de um alerta contra as
drogas (isso em 1971). Assim, toda a edição foi sumariamente censurada, e
apenas algumas páginas não finalizadas chegaram a ser divulgadas ao público,
anos depois.
O grupo possuía,
também, uma contraparte maligna, formada pelo gigante filisteu Golias, pela
sedutora Dalila e pelo rei babilônico Nabucodonosor, em sua fase animalesca,
com garras afiadas e corpo peludo. O grupo era comandado por um ensandecido rei
Acabe (mais tarde, foi revelado que o verdadeiro mentor dos vilões era a rainha
e feiticeira fenícia Jezabel, que manipulava Acabe e todos os outros). Ao invés
de uma Arca Cósmica habitada por milhões de casais de animais
interdimensionais, como era o caso dos Protetores, a base de operações dos Aniquilators
(Aniquiladores, nome assumido pelo grupo) era a Pirâmide de Gizé, que existia
simultaneamente em todas as realidades e era “pilotada” pelo faraó Ramsés II, o
Grande.
Outro grande atrativo das histórias dos Protetores era a possibilidade de crossovers, ou seja, encontros com personagens de outras editoras. Assim, foi nessa revista que os leitores conferiram o aguardado embate entre o Esmagador Sansão e o Incrível Hulk, da Marvel Comics; se deliciaram com a aliança formada entre Salomão e Batman, da DC Comics, para vencer a dupla de vilões Coringa e Dr. Josef Mengele, o Anjo da Morte, que haviam se unido para praticar assustadoras experiências genéticas em Gotham City; se divertiram com a disputa travada entre Noé, o Construtor, e o Professor Pardal, da Disney, para decidir quem era o maior inventor; e se emocionaram com o encontro dos profetas Elias, o Fazedor de Milagres, da BC Comics, e João Batista (John, the Baptist, da AD Comics), naquele que foi o primeiro crossover entre as duas maiores rivais do mercado de quadrinhos bíblicos. Essa última história foi extremamente interessante, já que, além de destacar de forma sutil as diversas semelhanças entre os personagens, termina com Elias fazendo uma irônica advertência ao profeta do Novo Testamento: “cuidado com as mulheres, principalmente as rainhas”.
DECADÊNCIA
Dominando completamente o mercado durante a maior parte dos
anos 1960 e 1970, a BC Comics viu seu poderio começar a diminuir em 1977, ano
em que Jacob Kurtzberg, chateado por diferenças criativas por Martin Lieber e
por sentir que seu trabalho na criação dos personagens não era suficientemente
reconhecido (afinal, ele era “apenas o desenhista”), decidiu deixar a editora e
migrar para a AD Comics, sua principal concorrente. Lá, Kurtzerg promoveu uma
verdadeira revolução, assumindo argumentos e desenhos de importantes títulos: Ethiopia´s Eunuch (Eunuco da Etiópia, o primeiro herói
bíblico negro da história); Mister Miracle (Senhor Milagre, narrando as
histórias do evangelista Filipe e sua capacidade de teletransporte); e Timothy,
Paul´s Pal (“Timóteo, amigo de Paulo”, trazendo as aventuras do jovem
discípulo de Paulo).
A nova fase da AD Comics foi muito
bem recebida pelo público e pela crítica, ao mesmo tempo em que os principais
títulos da BC Comics passaram a perder leitores. Isso trouxe um equilíbrio para
a competição entre as duas editoras, que passaram a disputar mês a mês a liderança
do mercado. Esse equilíbrio perdurou durante toda a década de 1980, até que, no
início dos anos 1990, uma série de decisões desastrosas tomadas pelos
executivos da BC Comics acabaram por levar a editora à falência, decretada de
forma definitiva em 1996. Os seus personagens, no entanto, foram adquiridos
pela Disney, que, animada pelo sucesso alcançado pela concorrente AD Comics no
cinema (seu primeiro filme, A Paixão de Cristo, de 2004, rendeu mais de US$ 600
milhões ao redor do mundo), pretende lançar um universo compartilhado
cinematográfico nos próximos anos. Aparentemente, a estreia será com o
personagem Salomão, e rumores indicam que Robert Downey Jr. deve viver o
gênio/playboy/bilionário/detetive na tela grande. Aguardemos.
Minas Gerais,
agosto, 2006













Meu irmao, que loucura. Agora quero ler essas revistas todas
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