quarta-feira, 8 de agosto de 2018

CONTO #4: A PIA


A PIA 



Ao chegar no inferno, Seu Sifo foi apresentado à sua punição: uma enorme pia de mármore branco, repleta de louça suja. O encarregado do lugar (ao menos era o que indicavam os chifres e o tom avermelhado da pele) declarou, em uma voz gutural: “seu trabalho será deixar esta pia completamente limpa!” Em seguida, desapareceu, em uma nuvem de enxofre e uma gargalhada sinistra.

Seu Sifo, que em vida nunca havia lavado uma vasilha (motivo de constantes reclamações de Dona Vita, sua saudosa esposa), resolveu encarar a nova responsabilidade, já que parecia mesmo não haver outra opção. Aos poucos, a enorme pilha de louça foi sendo vencida pelo seu trabalho, as vasilhas limpas sendo colocadas ao lado da pia interminável. Pareceu-lhe que, ao final de algumas horas, o serviço estaria concluído.

Ledo engano: quando faltavam apenas algumas dezenas de vasilhas, uma porta do cômodo em que estava foi aberta com um estrondo, um outro condenado entrou e, sem cerimônia, derramou sobre a pia outras centenas de pratos, copos e talheres sujos. O abrir da porta deixou entrar na cozinha um som bem animado de festa, que Seu Sifo concluiu que só poderia estar acontecendo no Céu, ou em um ambiente igualmente feliz.

Seu Sifo decidiu não se abater e continuou o serviço, com a mesma determinação. Mas poucas horas se passaram até que ele entendeu o que, de fato, estava acontecendo: parecia-lhe óbvio, agora, que o seu serviço estava destinado a nunca ter fim. A porta da cozinha sempre estava sendo aberta, e por ela constantemente entrava algum condenado para preencher novamente a pia, sem que Seu Sifo conseguisse limpá-la por completo.

Esta era, portanto, sua punição: lavar vasilhas por toda a eternidade, e sempre ver a montanha de louça suja à sua frente, não importando o quanto se esforçasse. Por vezes, Seu Sifo achou que conseguiria limpar a pia de mármore completamente. Uma vez, restaram apenas os talheres. Mas a porta era infalível, e a louça que vinha da festa nunca cessava de chegar.

Passaram-se alguns séculos nesta toada, até que um dia um pensamento novo pousou na cabeça de Seu Sifo. Ele percebeu que era, de fato, um privilegiado, em sua situação. Afinal, era um imortal, já que a passagem dos anos não o envelheceu nem um dia (isso ele atestava ao contemplar seu reflexo nas travessas de prata). Além disso, tinha um propósito, uma razão de existir (algo que nunca quando vivo): deixar a pia limpa. Para melhorar tudo, entendeu (e aceitou), que seu propósito era inatingível, e por isso mesmo nobre, e portanto, trágico (palavras que nunca associara a si mesmo, durante a vida sem graça que vivera). Tinha, portanto, algo para fazer eternamente, e a tranquila certeza de que nunca mais iria precisar de sair de sua zona de conforto, enfrentando o novo e o desconhecido. Descobriu que, para ele, aquilo era o Paraíso. 





Um comentário:

  1. Sempre leio esse conto quando estou sem vontade de lavar louça...

    https://asmelhorescronicas.blogspot.com/

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