segunda-feira, 16 de julho de 2018

Primeiro Conto - O CÃO

Meu objetivo principal para criar esse blog é superar aquele que provavelmente seja o maior obstáculo para todos os pretensos escritores (como eu): a PREGUIÇA. Ou, talvez seja melhor dizer: o BLOQUEIO CRIATIVO. Que também é conhecido como a FOBIA DA FOLHA EM BRANCO. É a grande dificuldade de COMEÇAR a escrever. E que, de acordo com escritores bem-sucedidos, só pode ser superada de uma forma: COMEÇANDO a escrever. O blog tem, portanto, a principal função de me obrigar a escrever, já que estou me desafiando a postar algum texto novo aqui pelo menos uma vez por semana. Assim, inauguro a publicação de textos inéditos com um texto que escrevi há um tempo atrás, mas cuja história já me perseguia há um bom tempo. Com vocês, O CÃO. (Comentários são sempre bem-vindos).


O CÃO

Quando abriu a porta naquela manhã, Eduardo foi surpreendido pela visão de um cachorro.

Era um animal grande, troncudo. O pelo completamente negro e eriçado, as presas brancas escancaradas, uma baba gosmenta pingando de sua boca. Os olhos com um tom ligeiramente vermelho, como se injetados de sangue. Era, em poucas palavras, assustador.

O cachorro, que estava a poucos metros da entrada da casa, começou a rosnar assim que viu Eduardo. Ele, como o homem sensato que era, fechou a porta imediatamente, com um estrondo. E passou, rapidamente, a examinar suas opções.

Sair pela porta, naquele momento, parecia arriscado demais. A casa, recém-adquirida, localizava-se em uma área isolada, portanto gritar por ajuda estava fora de questão. Além disso, o local em que a casa havia sido construída, fora da zona urbana, o deixava sem sinal algum de celular, e muito menos de internet. Eduardo sabia que estava sozinho, pelo menos por alguns dias, até que o pessoal do serviço, estranhando sua ausência, tentasse entrar em contato com ele. Como não tinha amigos chegados e nem familiares próximos, acreditava ser dos colegas de trabalho que viria sua ajuda.

Após pensar todas estas coisas, Eduardo deixou escapar um sorriso. Exagerava, afinal, como era mesmo de seu feitio. O pensamento de um resgate, depois de alguns segundos, lhe pareceu ridículo. Afinal, por que pensar que aquele cachorro continuaria ali por mais tempo? Obviamente o animal sairia dali logo, procurando alguma coisa para comer, algo que certamente não encontraria no quintal de Eduardo. Na possibilidade de que estivesse doente (o que explicaria a baba abundante, além dos olhos vermelhos e o aspecto absolutamente doentio que apresentava), certamente não duraria muito tempo. Assim, Eduardo resolveu relaxar, ligou a televisão e começou a pensar no que diria quando chegasse atrasado ao trabalho.

Meia hora depois, resolveu conferir a porta novamente. Novamente, deu de cara com o cachorro. Sua aparência parecia ainda mais assustadora, feroz, e seu rosnado ainda mais alto. Eduardo, fechando a porta, resolveu que talvez fosse hora de pensar no que faria para o almoço.

No final da tarde daquele mesmo dia, após algumas tentativas, Eduardo voltou a pensar na possibilidade de um resgate. Afinal, o animal não parecia ter modificado sua posição nem mesmo em um centímetro. Continuava rosnando diante da porta. A baba que caía de sua boca formava uma pequena e irregular poça no chão de terra à sua frente. Após o jantar, quando a noite já ia avançada, fez a última tentativa do dia. O resultado foi o mesmo, ou ainda pior. A impressão que Eduardo teve foi que, no escuro, os olhos vermelhos do cão brilhavam com uma ainda mais sinistra intensidade.


Na manhã do dia seguinte, ainda antes de tomar café, Eduardo dirigiu-se para a porta, com uma esperança genuína de que tudo o que acontecera no dia anterior tivesse sido apenas um sonho um pouco mais real. Os olhos vermelhos e o rosnado familiar, porém, acabaram de vez com seus pensamentos otimistas. Por mais absurdo que fosse, o animal continuava no mesmo local, mantendo exatamente a mesma posição. Ao bater a porta naquela manhã, um novo pensamento passou a incomodar o intranquilo Eduardo: podia ser apenas uma impressão, mas o cachorro parecia um pouco maior do que na véspera.

Nos dias que se passaram, a situação de Eduardo não se modificou nem um pouco. O grande cão preto continuava na mesma posição, sem arredar do lugar. E a impressão inicial deu lugar a uma constatação: o animal, de fato, crescia. Enquanto que, no primeiro dia, seu tamanho se assemelhava ao de um doberman, passados três dias, já se parecia com um fila brasileiro. Em pouco tempo, as comparações com o tamanho de outros cães já não faziam sentido. Ao final da primeira semana, já estava com o porte de um bezerro. Em duas semanas, competia em tamanho com um elefante.

Enquanto os dias passavam, a possibilidade de um resgate parecia diminuir, até se transformar em uma esperança extremamente distante. O fato é que, embora tivesse comentado no trabalho a compra da nova casa, e até mesmo prometido para os colegas a realização de um churrasco no local (“quando as coisas melhorarem”, havia dito), Eduardo não tinha dito para ninguém a sua localização. Nem para seu chefe. Além disso, como a mudança era recente, não havia modificado seu endereço nos registros da empresa. Outro agravante era que a casa estava afastada da rodovia, ligada à ela por uma pequena e deserta estrada de terra, usada apenas pelo próprio Eduardo. Assim, por mais que o cachorro crescesse exponencialmente, Eduardo tinha poucas esperanças de que o alguém o visse.

A decisão fatal foi tomada no dia em que os suprimentos haviam se esgotado completamente. Eduardo se viu, de fato, diante de apenas duas opções, nenhuma das quais particularmente atraente: ou enfrentar o assustador animal, ou morrer de fome. A escolha pela primeira opção foi facilitada por uma lembrança que veio a Eduardo: ele havia visto naquela velha casa, em meio à tranqueira que os antigos proprietários haviam deixado no sótão, uma antiga espingarda que, apesar da aparência enferrujada, poderia significar sua única esperança de enfrentar o cão gigantesco.

Quando pôs as mãos na velha arma, Eduardo conferiu, ansiosamente, a existência de munição. Suas mãos nevosas abriram a base do cano duplo e, felizmente, lá estavam dois cartuchos, aparentemente intocados. Como não havia absolutamente nenhuma maneira de testar o armamento, Eduardo decidiu que enfrentar a besta de forma destemida era a única coisa que poderia fazer naquele momento. E foi o que fez.




Era uma manhã de segunda-feira quando Eduardo abriu, violentamente, a porta de sua casa. Em um primeiro momento, se surpreendeu, justamente, com a ausência do cachorro negro. Foi aí que, observando com mais cuidado, percebeu que a entrada de sua casa estava coberta por uma sombra que contrastava com o brilho do sol que se espalhava pelos arredores. Passaram-se ainda alguns segundos antes que Eduardo notasse quatro grandes colunas escuras que ele nunca havia visto e que estavam plantadas em seu quintal. Uma rápida olhada para cima confirmou a insana conclusão: o animal havia crescido mais, havia se agigantado além de qualquer explicação, e o que o pobre homem viu ao olhar para o céu foi apenas um ventre negro e gigantesco, que com certeza trazia em uma de suas extremidades uma cabeça assustadora, de onde saía o rosnado que agora ouvia e que o aterrorizava mais do que nunca.

Foi o terror que o fez apertar o gatilho, uma, duas vezes, em direção ao ventre peludo e assustador daquele animal impossível. Os tiros romperam a pele escura e dois pequenos jorros de sangue saíram do animal e vieram a cair no chão ao lado do atirador. Ao baixar os olhos para acompanhar a queda do sangue, um horror absoluto tomou conta de Eduardo. De sua própria barriga saíam, agora, dois grossos filetes de sangue. A dor veio quase que imediatamente. Eduardo se agachou na mesma hora, a boca aberta em um grito, o sangue quente já escorrendo pelos lábios. O homem se encolheu no chão empoeirado, ao lado da velha espingarda, ainda fumegante. O sol nesse momento brilhou intensamente sobre seu rosto, e Eduardo, como por reflexo, fechou os olhos, uma última vez.

Ou então...

Eduardo abriu violentamente a porta, a arma carregada em suas mãos, decidido a enfrentar o inimigo ou morrer de uma vez, nas mandíbulas de seu estranho captor. Mas o que ele viu o surpreendeu totalmente.

Ao invés do gigantesco cachorro que o atormentara durante semanas, estava ali, parado diante dele, um pequeno vira-latas, preto e com uma aparência abandonada e doente. O animalzinho, ao se deparar com Eduardo (que também estava longe de seus melhores dias, esfomeado e maltrapilho), até mesmo desviou o olhar, como o fazem os cachorros acostumados às pequenas maldades humanas.

Eduardo, tão surpreso quanto confuso, foi para o lado do cachorro e o afagou levemente, antes de entrar no carro, com espingarda e tudo.

No caminho para a cidade, ficou pensando no que diria para o seu patrão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário