O CÃO
Quando
abriu a porta naquela manhã, Eduardo foi surpreendido pela visão de
um cachorro.
Era um
animal grande, troncudo. O pelo completamente negro e eriçado, as
presas brancas escancaradas, uma baba gosmenta pingando de sua boca.
Os olhos com um tom ligeiramente vermelho, como se injetados de
sangue. Era, em poucas palavras, assustador.
O
cachorro, que estava a poucos metros da entrada da casa, começou a
rosnar assim que viu Eduardo. Ele, como o homem sensato que era,
fechou a porta imediatamente, com um estrondo. E passou, rapidamente,
a examinar suas opções.
Sair
pela porta, naquele momento, parecia arriscado demais. A casa,
recém-adquirida, localizava-se em uma área isolada, portanto gritar
por ajuda estava fora de questão. Além disso, o local em que a casa
havia sido construída, fora da zona urbana, o deixava sem sinal
algum de celular, e muito menos de internet. Eduardo sabia que estava
sozinho, pelo menos por alguns dias, até que o pessoal do serviço,
estranhando sua ausência, tentasse entrar em contato com ele. Como
não tinha amigos chegados e nem familiares próximos, acreditava ser
dos colegas de trabalho que viria sua ajuda.
Após
pensar todas estas coisas, Eduardo deixou escapar um sorriso.
Exagerava, afinal, como era mesmo de seu feitio. O pensamento de um
resgate, depois de alguns segundos, lhe pareceu ridículo. Afinal,
por que pensar que aquele cachorro continuaria ali por mais tempo?
Obviamente o animal sairia dali logo, procurando alguma coisa para
comer, algo que certamente não encontraria no quintal de Eduardo. Na
possibilidade de que estivesse doente (o que explicaria a baba
abundante, além dos olhos vermelhos e o aspecto absolutamente
doentio que apresentava), certamente não duraria muito tempo. Assim,
Eduardo resolveu relaxar, ligou a televisão e começou a pensar no
que diria quando chegasse atrasado ao trabalho.
Meia
hora depois, resolveu conferir a porta novamente. Novamente, deu de
cara com o cachorro. Sua aparência parecia ainda mais assustadora,
feroz, e seu rosnado ainda mais alto. Eduardo, fechando a porta,
resolveu que talvez fosse hora de pensar no que faria para o almoço.
No final
da tarde daquele mesmo dia, após algumas tentativas, Eduardo voltou
a pensar na possibilidade de um resgate. Afinal, o animal não
parecia ter modificado sua posição nem mesmo em um centímetro.
Continuava rosnando diante da porta. A baba que caía de sua boca
formava uma pequena e irregular poça no chão de terra à sua
frente. Após o jantar, quando a noite já ia avançada, fez a última
tentativa do dia. O resultado foi o mesmo, ou ainda pior. A impressão
que Eduardo teve foi que, no escuro, os olhos vermelhos do cão
brilhavam com uma ainda mais sinistra intensidade.
Na manhã
do dia seguinte, ainda antes de tomar café, Eduardo dirigiu-se para
a porta, com uma esperança genuína de que tudo o que acontecera no
dia anterior tivesse sido apenas um sonho um pouco mais real. Os
olhos vermelhos e o rosnado familiar, porém, acabaram de vez com
seus pensamentos otimistas. Por mais absurdo que fosse, o animal
continuava no mesmo local, mantendo exatamente a mesma posição. Ao
bater a porta naquela manhã, um novo pensamento passou a incomodar o
intranquilo Eduardo: podia ser apenas uma impressão, mas o cachorro
parecia um pouco maior do que na véspera.
Nos dias
que se passaram, a situação de Eduardo não se modificou nem um
pouco. O grande cão preto continuava na mesma posição, sem arredar
do lugar. E a impressão inicial deu lugar a uma constatação: o
animal, de fato, crescia. Enquanto que, no primeiro dia, seu tamanho
se assemelhava ao de um doberman, passados três dias, já se parecia
com um fila brasileiro. Em pouco tempo, as comparações com o
tamanho de outros cães já não faziam sentido. Ao final da primeira
semana, já estava com o porte de um bezerro. Em duas semanas,
competia em tamanho com um elefante.
Enquanto
os dias passavam, a possibilidade de um resgate parecia diminuir, até
se transformar em uma esperança extremamente distante. O fato é
que, embora tivesse comentado no trabalho a compra da nova casa, e
até mesmo prometido para os colegas a realização de um churrasco
no local (“quando as coisas melhorarem”, havia dito), Eduardo não
tinha dito para ninguém a sua localização. Nem para seu chefe.
Além disso, como a mudança era recente, não havia modificado seu
endereço nos registros da empresa. Outro agravante era que a casa
estava afastada da rodovia, ligada à ela por uma pequena e deserta
estrada de terra, usada apenas pelo próprio Eduardo. Assim, por mais
que o cachorro crescesse exponencialmente, Eduardo tinha poucas
esperanças de que o alguém o visse.
A
decisão fatal foi tomada no dia em que os suprimentos haviam se
esgotado completamente. Eduardo se viu, de fato, diante de apenas
duas opções, nenhuma das quais particularmente atraente: ou
enfrentar o assustador animal, ou morrer de fome. A escolha pela
primeira opção foi facilitada por uma lembrança que veio a
Eduardo: ele havia visto naquela velha casa, em meio à tranqueira
que os antigos proprietários haviam deixado no sótão, uma antiga
espingarda que, apesar da aparência enferrujada, poderia significar
sua única esperança de enfrentar o cão gigantesco.
Quando
pôs as mãos na velha arma, Eduardo conferiu, ansiosamente, a
existência de munição. Suas mãos nevosas abriram a base do cano
duplo e, felizmente, lá estavam dois cartuchos, aparentemente
intocados. Como não havia absolutamente nenhuma maneira de testar o
armamento, Eduardo decidiu que enfrentar a besta de forma destemida
era a única coisa que poderia fazer naquele momento. E foi o que
fez.
Era uma
manhã de segunda-feira quando Eduardo abriu, violentamente, a porta
de sua casa. Em um primeiro momento, se surpreendeu, justamente, com
a ausência do cachorro negro. Foi aí que, observando com mais
cuidado, percebeu que a entrada de sua casa estava coberta por uma
sombra que contrastava com o brilho do sol que se espalhava pelos
arredores. Passaram-se ainda alguns segundos antes que Eduardo
notasse quatro grandes colunas escuras que ele nunca havia visto e
que estavam plantadas em seu quintal. Uma rápida olhada para cima
confirmou a insana conclusão: o animal havia crescido mais, havia se
agigantado além de qualquer explicação, e o que o pobre homem viu
ao olhar para o céu foi apenas um ventre negro e gigantesco, que com
certeza trazia em uma de suas extremidades uma cabeça assustadora,
de onde saía o rosnado que agora ouvia e que o aterrorizava mais do
que nunca.
Foi o
terror que o fez apertar o gatilho, uma, duas vezes, em direção ao
ventre peludo e assustador daquele animal impossível. Os tiros
romperam a pele escura e dois pequenos jorros de sangue saíram do
animal e vieram a cair no chão ao lado do atirador. Ao baixar os
olhos para acompanhar a queda do sangue, um horror absoluto tomou
conta de Eduardo. De sua própria barriga saíam, agora, dois grossos
filetes de sangue. A dor veio quase que imediatamente. Eduardo se
agachou na mesma hora, a boca aberta em um grito, o sangue quente já
escorrendo pelos lábios. O homem se encolheu no chão empoeirado, ao
lado da velha espingarda, ainda fumegante. O sol nesse momento
brilhou intensamente sobre seu rosto, e Eduardo, como por reflexo,
fechou os olhos, uma última vez.
Ou
então...
Eduardo
abriu violentamente a porta, a arma carregada em suas mãos, decidido
a enfrentar o inimigo ou morrer de uma vez, nas mandíbulas de seu
estranho captor. Mas o que ele viu o surpreendeu totalmente.
Ao invés
do gigantesco cachorro que o atormentara durante semanas, estava ali,
parado diante dele, um pequeno vira-latas, preto e com uma aparência
abandonada e doente. O animalzinho, ao se deparar com Eduardo (que
também estava longe de seus melhores dias, esfomeado e maltrapilho),
até mesmo desviou o olhar, como o fazem os cachorros acostumados às
pequenas maldades humanas.
Eduardo,
tão surpreso quanto confuso, foi para o lado do cachorro e o afagou
levemente, antes de entrar no carro, com espingarda e tudo.
No
caminho para a cidade, ficou pensando no que diria para o seu patrão.



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