quarta-feira, 25 de julho de 2018

Segundo Conto - O PRISIONEIRO



A história de O PRISIONEIRO foi uma das primeiras que escrevi, muito antes de pensar em criar este BLOG. Na verdade, foi uma história que me perseguiu por muito tempo, porque eu já sabia como seria todo o seu desenvolvimento, principalmente o final, mas o que me prendia (hein? hein?) era não saber como seria a forma utilizada. Pensei em fazer um conto, uma pequena novela, ou uma narrativa extensa e cheia de símbolos (como uma história de Neil Gaiman). No fim, optei por fazer um conto curto e simples, quase como uma parábola.

Comentários, críticas e sugestões são bem-vindos.




 O PRISIONEIRO

A FUGA

            O Prisioneiro se surpreendeu, naquela manhã, ao olhar para a janela, a única que havia em sua cela. Sua surpresa veio ao perceber que as cinco grossas barras de ferro (as únicas coisas que o separavam do mundo exterior) haviam sido reduzidas a apenas quatro. Aproximando-se lentamente, verificou que a barra central, a que faltava, havia sido arrancada com uma certa violência da grossa parede de pedras, que chegou a ficar levemente danificada.
            Após confirmar a ausência da barra, o Prisioneiro deu uma olhada rápida e assustada ao seu redor. A cela, que vinha sendo sua solitária moradia há tanto tempo (pelo menos quinze anos. Vinte, talvez?), estava absolutamente igual: quatro paredes de pedras, tão frias e ásperas quanto sempre foram. Na parede oposta à janela, uma pesada porta de madeira e ferro, que o Prisioneiro nunca havia visto ser aberta, à exceção de uma portinhola, na parte inferior, por onde ele recebia, três vezes por dia, sua ração de comida e água. Em um dos cantos da cela estava o pequeno buraco, do tamanho de um punho, que o Prisioneiro usava como privada. E, na parede oposta ao buraco, a pequena esteira de madeira que lhe servia de cama.
            E era isso. Durante os últimos (20? 25?) anos aquela cela havia sido todo o mundo do solitário Prisioneiro. E agora lá estava a janela, apenas quatro barras, espaço mais do que suficiente para a fuga do Prisioneiro. Do lado de fora, a paisagem não havia mudado nada: uma colina alta, cercada de campos verdejantes. Atrás dessa colina, se erguia uma fina coluna de fumaça branca, que o Prisioneiro sempre imaginara indicar a existência de uma vila.
            E foi num impulso, e sem olhar para trás, que o Prisioneiro fugiu de sua cela naquela manhã. Seu objetivo estava determinado em sua mente: iria, depois de tantos anos (será que já eram 30?), subir aquela colina, e descobrir o que havia no mundo fora de sua cela.

  
A VILA




            Quando chegou à Vila, a aparência do Prisioneiro não era das melhores. Nos anos em que passara na cela, poucos foram os banhos que tomou. E, mesmo assim, eram banhos improvisados, que tomava se aproveitando da chuva, e somente quando o vento estava voltado para dentro da janela da pequena cela, com suas cinco grossas barras de ferro (quando ainda eram cinco). Parecia, em todos os aspectos, um velho mendigo, com sua barba abundante e os trapos que usava como roupas (durante o tempo em que estivera preso, nunca havia recebido nenhuma vestimenta).
            Mas o Prisioneiro estava com sorte. A fumaça que o havia guiado à Vila tinha sua origem em uma velha ferraria, localizada mais ou menos no centro da pequena comunidade. Ao chegar à origem do fino filete branco que se erguia em direção ao céu, o Prisioneiro testemunhou uma discussão feia, protagonizada por um velho frágil (que vinha a ser o dono da ferraria) e seu ajudante, que o primeiro acusava de ser um ladrão. A discussão terminou com o ajudante (agora ex-ajudante) indo embora, ainda praguejando sobre a injustiça de que afirmava ser vítima, e com o velho ferreiro cabisbaixo, sozinho na ferraria, a perfeita imagem do abandono.
            Talvez movido por compaixão do velho, talvez pela sua urgente necessidade de um trabalho, ou mesmo por puro impulso, o Prisioneiro, diante daquela cena, resolveu falar. O fato o surpreendeu bastante. Afinal, foram muitos anos (mais do que ele poderia lembrar) sem emitir nenhuma palavra, simplesmente porque não havia com quem falar. O Prisioneiro chegou mesmo a se surpreender com o fato de se lembrar como pronunciar as palavras.
         - Precisa de um ajudante?
         Ao ouvir a pergunta, o velho se virou imediatamente para o Prisioneiro. A aparência desmazelada do homem provocou uma repulsa imediata no ferreiro, que ainda assim respondeu, mas com uma outra pergunta:
         - Já trabalhou com isso?
- Nunca – respondeu o Prisioneiro, sincero.
          O velho olhou novamente para o homem, desta vez com a curiosidade lentamente superando o asco.
-  E por que eu deveria lhe aceitar?
           - Bom, – começou o Prisioneiro, de repente tomado por uma confiança até então desconhecida – não vai lhe custar nada. Eu posso trabalhar em troca de comida e de um lugar para morar, que pode ser aqui mesmo na sua ferraria. Você precisa de um ajudante e eu preciso de comer. Acho que pode ser bom para nós dois.
          O velho deu mais uma boa olhada no Prisioneiro e, para o espanto de ambos, resolveu aceitar a proposta inesperada.
           As semanas que se seguiram foram surpreendente boas. O Prisioneiro se adaptou rapidamente ao novo trabalho e, talvez por ter ficado tanto tempo sem nada para fazer, demonstrou muita disposição no serviço, o que agradou muito ao velho ferreiro, que se afeiçoou rapidamente ao novo empregado.
            O Prisioneiro, em pouco tempo, mudou drasticamente de aparência: fez a barba, engordou, passou a vestir roupas novas (dadas pelo velho ferreiro), e trazia nos olhos um novo brilho de autossatisfação e contentamento. Este brilho aumentava consideravelmente na hora do almoço, que era quando a filha única do velho aparecia na ferraria, trazendo comida para os dois homens. A jovem era, de fato, adorável, com um jeito tímido e modos polidos e agradáveis. Aos poucos, o velho foi percebendo que, entre o Prisioneiro e a garota, surgia algo que era mais do que uma simples amizade. Mas, como já foi dito, o ferreiro havia se afeiçoado ao Prisioneiro, que de fato enxergava como um filho, e se sentia feliz com a possibilidade de que sua filha pudesse se casar com aquele homem tão sério e trabalhador.
            Depois de um tempo, o velho, não com pouca surpresa, percebeu que o Prisioneiro estava, aos poucos, separando para si parte do material que manipulava na ferraria. Era uma quantidade mínima: limalhas insignificantes, poucas gramas para cada quilo de ferro trabalhado. O velho notou que, até mesmo nas raras vezes em que realizava trabalhos com ouro, o Prisioneiro ficava com uma pequena quantidade do metal. Mas, mesmo percebendo isso, o velho não disse nada. Não só porque gostasse do Prisioneiro (e de fato gostava), mas porque eram quantidades muito pequenas, imperceptíveis mesmo, e o homem, de fato, não recebia salário. As quantidades desviadas, o velho imaginou, deviam estar sendo utilizadas para trabalhos extras, que o Prisioneiro certamente realizava à noite, quando o velho ia embora, já que, por muitas vezes, a fumaça branca que saía da ferraria continuava visível no céu até a alta madrugada. “Um dia”, concluía o velho, quando pensava no assunto, “tudo isso será dele, mesmo”.


A CARTA




        Foi em uma manhã comum, igual a tantas outras, que o velho foi surpreendido, ao chegar à ferraria, com a ausência de seu ajudante. O local estava perfeitamente arrumado, mas vazio: nem mesmo a fornalha havia sido acesa. No local que servia de cama para o Prisioneiro, os cobertores estavam completamente dobrados, mas não havia sinal do homem. Foi aí que o velho viu, com um mau pressentimento, em cima da bancada, um envelope fechado, com um nome escrito. Embora não soubesse ler, o velho sabia que se tratava do nome de sua filha.
            A jovem chegou rápido à ferraria, depois de receber o recado do pai. Ela abriu o envelope imediatamente, talvez com o mesmo mau pressentimento do velho. Em poucos minutos, desabou em um choro incontrolável. A carta, como se supunha, era uma despedida. Trazia, depois de diversos agradecimentos ao bom coração do velho e de uma declaração de nobres sentimentos pela garota, a seguinte frase: “espero que você encontre alguém que lhe faça feliz. E nesse dia você poderá usar este anel, como a mulher casada que você merece ser”. O envelope realmente tinha em seu interior, além da carta, um singelo anel de ouro, resultado de muitas horas de trabalho noturno e feito com os fragmentos de diversas joias que receberam, na ferraria, ajustes ou polimento.
            Na tarde desse mesmo dia o Prisioneiro estava, novamente, no alto da colina. Diante de si, sua antiga prisão. Pela primeira vez a olhava pelo lado de fora: era um prédio baixo, de apenas um pavimento, e composto de diversas (incontáveis) janelas, uma ao lado da outra, todas (menos uma) com cinco idênticas barras de ferro. Para qualquer dos lados que olhasse, o Prisioneiro não via o fim da construção. Imaginava quantos prisioneiros havia, todos iguais a ele, todos presos durante tanto tempo (quanto?) atrás das cinco barras de ferro, apenas olhando a coluna de fumaça, imaginando o que haveria atrás da colina verdejante.
            O Prisioneiro, rapidamente, identificou a sua cela: as quatro grossas barras de ferro não deixavam dúvida de que era a certa. Em um pulo, estava novamente do lado de dentro, que permanecia idêntico ao dia em que escapou: as quatro paredes frias, a esteira de madeira em um dos cantos, a grossa porta de madeira e ferro, eternamente fechada.
            Rápida e habilmente, foi tirando o conteúdo da bolsa que trazia nas costas. Desenrolou, com uma certa reverência, um grande pedaço de pano encardido, de onde tirou a obra que havia produzido em dezenas de noites em claro, usando o metal que havia coletado, aos poucos, de centenas de fregueses: uma grossa e resistente barra de ferro, idêntica à que havia sido tirada de sua cela (ele sabia que era idêntica, porque a conhecia muito bem. Décadas – quantas? – observando pela janela, tocando o metal frio com os dedos tristes). De outro recipiente, tirou uma pequena quantidade de argamassa escura, que adquiriu do pedreiro da vila, em troca de um pequeno serviço avulso. Com a argamassa, o Prisioneiro, cuidadosamente, instalou a barra de ferro no lugar da que havia sido levada. Em poucos minutos, estava feito: a janela novamente possuía suas cinco barras, e o que era mundo foi reduzido a um quadro retangular, que trazia uma colina e uma coluna branca de fumaça, que novamente surgia no céu.
            O Prisioneiro se sentou, cansado e satisfeito, no canto de sua cela. Ele quase podia sentir o gosto da ração que, logo, seria inserida pela pequena abertura da velha e pesada porta de madeira e ferro, que ele não se lembrava de, um dia, ter visto ser aberta.



2 comentários: