O que o ímpio teme lhe acontecerá; o que os justos
desejam lhes será concedido.
Provérbios 10:24
O versículo acima traz duas das
principais forças que direcionam e impulsionam nossas vidas: o Medo e o Desejo.
O trecho também nos mostra a visão bíblica mais tradicional sobre o assunto, ou
seja, a noção de que os pecadores atraem sobre suas vidas aquilo que temem,
assim como os justos fazem com aquilo que desejam. Essa visão, porém, é
facilmente desmentida, não só pela observação do nosso dia a dia, mas também (e
mais importante) pela própria Bíblia.
O livro de Jó, por exemplo (por sinal,
o mais antigo das Escrituras), nos mostra a história de um homem que, apesar de ser chamado
de “íntegro, justo, temente a Deus e que evitava o mal” (Jó 1:1) pelo próprio
texto, acaba sofrendo exatamente aquilo de que tinha medo: “O que eu temia veio sobre mim; o que eu
receava me aconteceu” (Jó 3:25). Além disso, o próprio discurso de Jó em
sua defesa traz a observação de que, muitas vezes, os desejos dos ímpios se
realizam: “Por que vivem os ímpios?
Por que chegam à velhice e aumentam seu poder? Eles veem os seus filhos estabelecidos
ao seu redor, e os seus descendentes diante dos seus olhos. Seus lares estão
seguros e livres de medo; a vara de Deus não os vem ferir. Seus touros nunca
deixam de procriar; suas vacas dão crias e não abortam. Eles soltam os seus
filhos como um rebanho; seus pequeninos põem-se a dançar. Cantam, acompanhando
a música do tamborim e da harpa; alegram-se ao som da flauta. Passam a vida na
prosperidade e descem à sepultura em paz” (Jó 21:7-13).
É possível perceber, portanto, que a
concretização dos nossos medos e a realização dos nossos desejos não depende
somente de sermos ímpios ou justos, mas de algo mais. E o que seria esse algo
mais? A resposta, claro, está na própria Bíblia, mais especificamente em Marcos
11:23: “Porque em verdade vos digo
que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar
em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será
feito”. Quando Jesus diz ALGUÉM, ele automaticamente elimina a separação dos
homens entre “pecadores” e “justos”. De fato, o que ele faz é apresentar uma Lei
Geral que rege a vida das pessoas, independente de seu compromisso com Deus. E
a Lei é: “as suas palavras definem a sua vida”.
Voltando para Jó, notamos
que ele era um homem que, apesar de reconhecido como justo, demonstrava, com
suas atitudes, que temia que o mal se abatesse sobre ele e sua família. No
primeiro capítulo do livro, percebemos que ele adotava uma rotina ditada pelo
medo: “E iam seus filhos à casa uns dos outros e
faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a
comerem e beberem com eles. Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de
seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e
oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó:
Porventura pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim
fazia Jó continuamente” (Jó 1:4,5). Observe que o texto nos mostra que
Jó DIZIA. Suas palavras confirmavam, continuamente, que ele temia, não o fato
de que seus filhos tivessem amaldiçoado a Deus NO CORAÇÃO (note o nível da
paranoia de Jó, seu medo dos supostos pensamentos dos filhos), já que, se fosse
assim, a melhor atitude de sua parte seria ter uma boa conversa com os mesmos.
Mas não, o medo de Jó não era que seus filhos pecassem, mas sim que esse pecado
trouxesse como consequência a desgraça sobre sua família. Por isso sua atitude
de defesa: ele realizava um sacrifício de sangue, como forma de cobrir os
pecados e se proteger da ira de Deus. No final, a confissão contínua de Jó
acabou fazendo com que seus temores virassem realidade, em total consonância
com o ensino de Jesus em Marcus 11 (para uma visão mais profunda sobre o
assunto, recomendo a leitura de Jó e o
sofrimento do justo, de Rozilon Lourenço).
Se entendemos, portanto,
que as palavras equivocadas de um justo podem fazer com que seus temores se
realizem, não seria absurdo pensar que as palavras positivas dos ímpios possam
fazer de seus sonhos realidade. Deus, afinal, não é religioso, e uma de suas
mais marcantes características é justamente sua bondade para com todos, até
para com aqueles que não O conhecem. Como ensinou o apóstolo Paulo em sua
pregação em Listra: “No passado Ele [Deus]
permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo, não
ficou sem testemunho: mostrou Sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas
no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e enchendo de alegria os
seus corações" (Atos 14:16-17).



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